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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei

Meu novo encanto musical atende pelo nome de "Grávido", disco gravado por Gonzaguinha em 1984. Mesmo conhecendo faixas famosas do disco ("Lindo lago do amor", que aparece duas vezes, e "Nunca pare de sonhar"), confesso que desconhecia o CD.
Conhecer o contexto do disco, a ideia ali presente, ajudam a resignificar a fábula de "Lindo lago do amor"("O sapo entregou:/ ele tomou um banho de água fresca/ no lindo lago do amor") e contextualizam melhor como se insere "Nunca pare de sonhar" nas ideias, na história e da poética de Gonzaguinha ("Nós podemos tudo/ nós podemos mais/ vamos lá fazer o que será").
O disco foi feito no contexto de um filho e das Diretas Já e tudo isso transparece em todo momento.
Não à toa diz Gonzaguinha em "Meninos eu vi (gravidez)":


Meninos eu vi
o povo nas ruas
em plena gravidez
para quem quiser saber
para quem quiser ganhar
os filhos dessa gravidez
Há uma homenagem a desaparecidos políticos em "Cabeça".  Pela foto no encarte, suponho que se refira a Mário Alves, um dos fundadores do PCBR:

eu brinco vendo um copo de aguardente
esquecido lá no canto (pro santo)
de alguém que algum dia nos sorria
após aquela batalha e no entanto
é hoje apenas uma das lembranças
Mas o aspecto mais curioso para mim no disco é uma autorreferenciação de Gonzaguinha.  Em 1982, no disco "Caminho do coração", Gonzaguinha gravou o estrondoso sucesso "O que é, o que é":



Aí, dois anos depois, em "Grávido", Gonzaguinha se responde em "Nem o pobre nem o rei":

Eu perguntei perguntei e perguntei
Muita gente respondeu
Não sei não sei
Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
Ninguém é feliz sozinho
Nem o pobre nem o rei

(Diz pra eu ser feliz meu irmão)

Mamãe falou que eu era um menino muito feliz
E eu acreditei
Cresci com esta figura gravada no coração
Usei abusei lambuzei
(Eu lambuzei)

Agora eu ando em todas as bocas do meu país
Dizendo que a vida é bonita apesar dos pesares
Mas devo de admitir
Talvez eu não tenha aprendido
O que é felicidade


Dizem que felicidade é só um momento, ô...
É coisa passageira
Dizem que é questão de loteria
Que todo mundo persegue
De toda e qualquer maneira

Falam que o dinheiro não a compra
Mas há quem a encontre no mercado
É só vender a alma pro dono do poder
E serás o mais feliz safado

Ventura contentamento
Sucesso divertimento
Saúde amizade e muita paz
Acho que é tudo isto
Acho que é muito mais

Não é somente alegria
Não é somente bom-humor
É tudo reunido no mistério de outra palavra
Uma pequena palavra
Amor amor amor

Eu perguntei perguntei e perguntei
Muita gente respondeu
Não sei não sei
Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
Ninguém é feliz sozinho
Nem o pobre nem o rei...





Curioso que essa música, embora gravada e regravada por outros artistas, não seja tão conhecida quanto seu par, "O que é o que é".  Afinal, "ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei".

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