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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei

Meu novo encanto musical atende pelo nome de "Grávido", disco gravado por Gonzaguinha em 1984. Mesmo conhecendo faixas famosas do disco ("Lindo lago do amor", que aparece duas vezes, e "Nunca pare de sonhar"), confesso que desconhecia o CD.
Conhecer o contexto do disco, a ideia ali presente, ajudam a resignificar a fábula de "Lindo lago do amor"("O sapo entregou:/ ele tomou um banho de água fresca/ no lindo lago do amor") e contextualizam melhor como se insere "Nunca pare de sonhar" nas ideias, na história e da poética de Gonzaguinha ("Nós podemos tudo/ nós podemos mais/ vamos lá fazer o que será").
O disco foi feito no contexto de um filho e das Diretas Já e tudo isso transparece em todo momento.
Não à toa diz Gonzaguinha em "Meninos eu vi (gravidez)":


Meninos eu vi
o povo nas ruas
em plena gravidez
para quem quiser saber
para quem quiser ganhar
os filhos dessa gravidez
Há uma homenagem a desaparecidos políticos em "Cabeça".  Pela foto no encarte, suponho que se refira a Mário Alves, um dos fundadores do PCBR:

eu brinco vendo um copo de aguardente
esquecido lá no canto (pro santo)
de alguém que algum dia nos sorria
após aquela batalha e no entanto
é hoje apenas uma das lembranças
Mas o aspecto mais curioso para mim no disco é uma autorreferenciação de Gonzaguinha.  Em 1982, no disco "Caminho do coração", Gonzaguinha gravou o estrondoso sucesso "O que é, o que é":



Aí, dois anos depois, em "Grávido", Gonzaguinha se responde em "Nem o pobre nem o rei":

Eu perguntei perguntei e perguntei
Muita gente respondeu
Não sei não sei
Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
Ninguém é feliz sozinho
Nem o pobre nem o rei

(Diz pra eu ser feliz meu irmão)

Mamãe falou que eu era um menino muito feliz
E eu acreditei
Cresci com esta figura gravada no coração
Usei abusei lambuzei
(Eu lambuzei)

Agora eu ando em todas as bocas do meu país
Dizendo que a vida é bonita apesar dos pesares
Mas devo de admitir
Talvez eu não tenha aprendido
O que é felicidade


Dizem que felicidade é só um momento, ô...
É coisa passageira
Dizem que é questão de loteria
Que todo mundo persegue
De toda e qualquer maneira

Falam que o dinheiro não a compra
Mas há quem a encontre no mercado
É só vender a alma pro dono do poder
E serás o mais feliz safado

Ventura contentamento
Sucesso divertimento
Saúde amizade e muita paz
Acho que é tudo isto
Acho que é muito mais

Não é somente alegria
Não é somente bom-humor
É tudo reunido no mistério de outra palavra
Uma pequena palavra
Amor amor amor

Eu perguntei perguntei e perguntei
Muita gente respondeu
Não sei não sei
Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
Ninguém é feliz sozinho
Nem o pobre nem o rei...





Curioso que essa música, embora gravada e regravada por outros artistas, não seja tão conhecida quanto seu par, "O que é o que é".  Afinal, "ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei".

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