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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

De violências, intolerâncias e o nascimento de fake news

Dia desses a minha cidade, Natal, foi abalada por um crime bárbaro: um homem confessou que matou uma das filhas de sua namorada e enterrou o corpo em sua casa. 

A violência, ainda mais quando dirigida contra uma criança, é algo de desesperar.

Em depoimento em sua audiência de custódia, conforme breve corte do vídeo que circulou em redes sociais, o homem admite que estava planejando se mudar com sua companheira para Santa Catarina e comenta os preparativos de como lidariam com os três filhos da mulher. 

Ele conta de um problema com respeito à Pétala, a filha do meio: a avó da menina é praticante de religiões de matriz africana e, segundo o homem, numa linha de trabalho de esquerda. Ele diz, literalmente, que a mulher é envolvida com essas "religiões de esquerda" e complementa falando do culto como sendo baiano. 

Ainda que o corte do vídeo não deixe isso evidente, ele insinua que a motivação para a morte da menina seria não deixá-la sob os cuidados de alguém adepto de uma religião a que ele atribui valores demoníacos.  A motivação do assassinato seria o racismo religioso, a intolerância religiosa, especialmente contra as linhas de esquerda das religiões de matriz afroameríndia frequentemente vistas com ressalva como se tratando de algo diabólico, seja pelo discurso religioso cristão repleto de preconceito, seja pelas próprias referências dos religiosos e suas entidades a figuras como Lúcifer. Eu mesmo já ouvi de adeptos de candomblé, jurema ou outros cultos espiritualistas frases de desconfiança sobre as práticas da linha de esquerda da quimbanda, por exemplo. 

A meu ver, é evidente que o cerne da fala do assassino confesso é o racismo religioso. E isso é sinal de uma sociedade que estigmatiza e demoniza todas as formas de culto e religião que não são hegemônicos.

Possivelmente a divisão entre as imagens da linha de trabalho espiritual de esquerda e de direita é uma tradição religiosa ainda mais antiga e secular.  Um exemplo disso vem da Cabala ou Cabalá judaica.  Na Cabala, os conceitos de direita e esquerda não têm nenhuma relação com o espectro político e ideológico moderno, mas representam forças cósmicas, espirituais e psicológicas fundamentais que estruturam o universo e a alma humana.  Na Cabala tais forças são visualizadas na Árvore da Vida, que é dividida em três colunas ou "pilares". A direita e a esquerda representam a dualidade essencial da criação: a expansão e a restrição.

Na Direita está o Pilar da Misericórdia, associado à expansão, ao dar infinito e à benevolência. É a força que irradia sem limites e se relaciona à Sabedoria, à Misericórdia e à Vitória. A Direita representa a energia fluida, a graça, o perdão e o desejo de compartilhar.   

Na visão cabalística, um mundo feito apenas da Direita seria insustentável. A luz infinita e o amor sem limites sobrecarregariam a criação, pois não haveria limites ou estruturas para conter essa energia. Seria como despejar um oceano em um copo de água.

Já a Esquerda na Cabala se refere ao Pilar da Severidade, atuando como contrapeso exato da direita. Está associada à restrição, ao limite, ao julgamento e à disciplina e se relaciona ao Entendimento, ao Juízo e à Reverência. De certo modo, fala sobre os limites e a forma uma vez que é a força que "segura" e canaliza a luz infinita da direita para que ela possa ser recebida sem destruir o receptor.  

As ideias se reproduzem de maneira aproximada na cosmovisão das religiões de matriz africana, de modo que é comum a distorção de que a Direita representa a bondade e a misericórdia enquanto as linhas de esquerda seriam forças instrumentais para promover o Mal e a Destruição.  No entanto, a esquerda não é "má" por natureza; o rigor é absolutamente necessário para a existência do universo. 

Para a Cabala, o mal nasce de um desequilíbrio, o que também pode ser dito nas religiões afroameríndias.  No campo da Cabala é necessário o Pilar do Equilíbrio, sinalizado, por exemplo, na compaixão, de modo que ser compassivo não é apenas ser "bonzinho", mas a mistura exata e harmônica entre a misericórdia (direita) e o rigor (esquerda). É dar ao outro exatamente o que ele precisa, de uma forma que ele seja capaz de receber.

Essas ideias podem ser encontradas também, talvez por uma influência sincrética secular, nas religiões de matriz afroameríndia.  Por vezes essas ideias nas tradições afroameríndias são simplificadas como se tratando de uma divisão entre fazer o bem (a direita) e fazer o mal (a esquerda), que não tem qualquer relação com as ideologias políticas da modernidade, como disse acima.

A visão intolerante do assassino confesso fala de não querer que aquela criança fosse criada por uma mulher adepta de uma religião de matriz africana na linha da esquerda, religiosa e não ideológica ou política, que representa, no campo do preconceito, o próprio. A suposta motivação para o crime não foi a intolerância política, mas um profundo racismo e intolerância religiosa, a julgar pelo corte do trecho do depoimento do assassino em sua audiência de custódia.

Acontece que como se fosse o fogo em um rastilho de pólvora diversos perfis nas redes sociais interpretaram à referência do assassino como sendo político-ideológica ainda que fosse claramente religiosa: como se ele tivesse afirmado que as religiões afroameríndias fosse coisa de esquerdista. Assim nasceu uma fake news.

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