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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Exilado


Hoje eu perguntei ao ChatGPT o que é um exilado. Ele me disse que exilado "é alguém que vive fora de sua terra natal por força de decisão política, perseguição ou risco à sua segurança, geralmente proibido de voltar".

Mas eu estava pensando que exilado é uma condição da vida que, por várias formas, pode ser convertida em uma forma de violência. Exilado parece ser uma coisa da qual eu não posso escapar, com a qual não posso deixar de viver, mas que de vez em quando um discurso ou uma ação podem atualizar de modo a nos ferir.

Hoje eu me vi cheio de marcas de feridas, como facadas ensanguentadas, deixadas pelo exílio do qual não consigo escapar. Um exílio que é minha vida e minha existência mas que uma palavra pode, ao tentar me descontextualizar, tornar em algo que essencialmente me afasta de quem sou e de onde quero chegar.

Não consigo deixar de pensar que a vida começa com um exílio forçado: nosso lugar no mundo era um útero do qual fomos expelidos e não temos como retornar.

Não consigo deixar de pensar no Édipo que, de certa maneira, foi enviado ao exílio para que pudesse fugir de seu destino: matar seu pai e casar com sua mãe. O exílio era parte constitutiva de sua vida e, ainda assim, seu destino teimou em ser cumprido.

Não consigo deixar de pensar nos sonhos que fomos deixando pelo caminho, os lugares, desejos, amores que fomos deixando no caminho que foram atualizando a dor do exílio todos os dias.

Não consigo deixar de pensar no meu exilado pai, que deixou o país até o Chile mas que talvez nunca tenha deixado sua condição de exílio diante de mim, meus irmãos, filha, sobrinhos. O exílio e a dolorosa solidão eram parte do que ele era e passaram a fazer parte do que eu sou.

Eu caço meu exílio. Eu fiquei pensando hoje que o discurso e as decisões dos outros me empurram ao exílio para me arrancar de minhas bases, de minha família, de meus contextos, minha língua, meus lugares, meus nasceres do sol, meus pássaros que cantam. Sou exilado para que a dor seja concreta e real, de modo que eu nunca consiga olhar para mim mesmo e ver o exílio como parte do que sou sempre, do sujeito que se depara com o que aparta dos outros, dos poderes, das forças e se faz um diferente do que era o outro.

Abraço meu exílio para que eu entenda que eu sou uma topia. Que eu só existo em mim mesmo, nos meus limites, no meu corpo, na minha mente, no meu coração. Eu não existo nos outros, não existo nos lugares de que fujo ou que me são vetados. Mas a existência dos outros e dos lugares e tempos aos quais não posso voltar me lembram que viver é de uma dor solitária.

Abraço meu exílio para entender que busco minha heterotopia — eu sou um lugar em que não me deixam estar mas que eu estou mesmo assim. Porque utopia, para meu exílio, é só a morte — um corpo morto.

A vida é um exílio porque quem pode não pode querer que eu cumpra meu destino. Mas eu driblo o poder — porque cumpro meu destino dentro de mim entendendo que a vida é exílio de tudo que eu já fui, já vi, já fiz e de todos os lugares em que já estive.

O exílio é a saudade do que já foi. É a foto dos amores sorridentes, das palmeiras, das pimentas, dos sons e cheiros que só existem na mente. O exílio é a saudade do que ainda não veio e só pode vir se eu entender que o exílio em mim é parte do que sou: a expulsão do paraíso, a ausência do pai que não quer ser morto, o amor que só existe de uma forma torpe e absurda.

O exílio é o vídeo, a música, o cheiro, a volta, a ida. O exílio é a vida. A sua fala não me exila, seu poder não me afasta, não me constitui, porque eu sou isso e sigo em frente — porque tudo é memória e porque eu completo a parte que me falta, exilado.

Aí eu perguntei ao Gemini o que é um exilado. Segundo ele, "exilado refere-se a uma pessoa que foi forçada a abandonar sua terra natal" e e que "vive uma separação compulsória". Sou um exilado. Gemini complementa que, para "muitos filósofos e escritores, o exílio não é apenas um local geográfico, mas um estado de espírito". Nem topia, nem utopia, nem heterotopia - uma atopia: o "exilado vive entre dois mundos: o que deixou (que continua a mudar sem ele) e o novo (onde muitas vezes é visto como estrangeiro)".

Exilado é nossa identidade essencial. No mito judaico-cristão, somos exilados do paraíso. Não é uma perda de identidade, mas a nossa identidade. Mas a violência está quando o discurso nos joga essa realidade na cara, no corpo, impedindo-nos que nos vejamos como somos e nos mostrando o tanto que perdemos para que, existencialmente, nos percamos. A melancolia.

O exílio sou eu. A violência de ser exilado transparece na foto de um lugar em que eu não posso mais estar. Como se ao se materializar numa imagem o exílio quisesse me dizer que aquilo que eu sou é essencialmente uma dor, não um chamado do caminho para continuar andando.

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