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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

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Uns muitos anos atrás eu terminei pregando uma mensagem na igreja Betesda que era resultado de uma inquietação ainda mais antiga. Era a chamada parábola do Bom Samaritano que me incomodava.

De fato, eu a ouvia desde os tempos que estudava no Colégio das Neves, em Natal. Ouvia reflexões sobre ela em espaços espíritas pelos quais já tinha passado. Já tinha refletido no evangelho de Lucas nos muitos anos em que estudei teologia. O que me incomodava, afinal?

Acho que tinha sempre a sensação de que só eu lia aquela parábola na contramão. E terminei levando essa leitura na contramão para o púlpito. Você deve conhecer a estória, mas eu vou reproduzí-la a seguir na tradução A mensagem (Lc 10, 25–37):

25Naquele momento, para testar Jesus, um líder religioso lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para ter a vida eterna?”

26Ele respondeu: “O que está escrito na Lei de Deus? Como você a interpreta?”

27Ele disse: “Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”.

28“Boa resposta!”, disse Jesus. “Faça isso e viverá.”

29Querendo fugir da resposta, ele perguntou: “Como saber quem é o próximo’?”.

30–32Jesus respondeu com uma história: “Certa vez, um homem viajava de Jerusalém para Jericó. No caminho, foi atacado por ladrões. Eles o espancaram e fugiram com suas roupas, deixando-o quase morto. Pouco depois, um sacerdote passou por aquela estrada, mas, quando viu o homem, esquivou-se e simplesmente foi para o outro lado. Em seguida, surgiu um religioso levita. Ele também evitou o homem ferido.

33–35“Um samaritano que viajava por aquela estrada aproximou-se do ferido. Quando viu o estado do homem, sentiu muita pena dele. Aplicou ao ferido os primeiros socorros, desinfetando os ferimentos e fazendo alguns curativos. Pôs o homem sobre o jumento em que viajava e levou-o até uma pensão. Na manhã seguinte, entregou duas moedas de prata ao dono da pensão e disse: ‘Cuide bem dele. Se custar mais, ponha na minha conta; pago quando voltar’.

36“O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?”.

37“Aquele que o tratou com bondade”, respondeu o líder religioso. Jesus concluiu: “Faça a mesma coisa”.

Acho preciso destacar que Jesus teria contado essa estória para responder a uma pergunta muito específica, feita por um líder religioso: "Como saber que é o próximo?"

Eu me incomodava ao longo da minha vida porque toda vez que eu ouvia alguém falar sobre esse texto era para dizer que o próximo, que precisava ser ajudado, era o homem assaltado e ferido. As mensagens sempre falavam que as pessoas em dor e sofrimento ao nosso redor e em nossas calçadas eram o próximo ajudado. Mas isso nunca pareceu fazer sentido nesse texto para mim. E sabe por quê?

Por causa da pergunta de moral da estória com a qual Jesus termina: “O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?”

À pergunta quem é meu próximo Jesus relaciona ao próximo do homem ferido. Não é sobre o homem ferido na estrada ser o próximo desprezado pelo sacerdote e pelo levita do tempo. A pergunta é sobre só o samaritano poder ser considerado o próximo pelo homem ferido. Ela não é uma questão que inclui. Ela exclui. Ela orienta a se afastar.

Não é olhar o homem ferido como alguém a ser ajudado, mas é se afastar e ignorar todo aquele que o desprezou.

Meu incômodo era claro demais para mim: essa era uma estória para dizer àquele líder religioso que ele — e todo mundo, de resto — deveria se afastar, ignorar, virar as costas a qualquer sistema religioso, templo, sacerdote, levita, líder que não acolhe o ser humano ferido, falho, incompleto, errado.

O sistema religioso, não apenas aquele que se identifica como cristão, costuma, vez por outra, jogar na nossa cara que, em nome da tradição, da norma moral, da teologia, da pureza ritual ou espiritual, é preciso mudar o lado da calçada quando encontramos um ser purulento. A parábola fala que sacerdote e levita, os religiosos, se esquivaram do homem ferido e cruzaram para o outro lado. Em nome de uma pureza o desprezaram.

Mas ela não se importa em dizer que eles desprezaram o seu próximo, mas se preocupa em dizer que o homem ferido, o excluído, o purulento, só foi ajudado por um herege, por outro impuro, por um samaritano, membro de um povo igualmente desprezado e desqualificado pela religião oficial.

A parábola não se importa em dizer que os religiosos desprezaram alguém que precisava de ajuda, que excluíram quem precisava de acolhimento — ajudado por um excluído de outra ordem. Ela se importa em dizer que aquele que foi excluído, aquele que foi desprezado pelos representantes da religião, que foi deixado na rua sem assistência e sem acolhimento, deve desprezá-los do mesmo jeito. Só o samaritano deve ser considerado seu próximo.

Há tantos anos, quando eu preguei sobre esse texto, minha mensagem, que eu sentia na contramão de tudo que eu já tinha ouvido sobre ele, fez um sentido novo, sobre não mendigar espaço e acolhimento nos locais de espiritualidade que não acolheram você. Esqueça que eles existem. Eles não são seu próximo e, por isso mesmo, não merecem sua lágrima e seu amor. Porque, se eu ainda me lembro, o mandamento cristão é sobre amar o próximo. Jesus é um radical, portanto, no evangelho de Lucas: aquele sacerdote e aquele levita, aquela religião que exclui e não acolhe, não são o próximo, devem ser objetos de desprezo e não de amor.

Naquele momento eu questionei as tantas vítimas de preconceito e intolerância nos ambientes cristãos: se uma religião não acolhe os excluídos, como as pessoas LGBT, por exemplo, deixe-os de lado porque não são seus próximos nem dignos de seu amor. Somente são dignos os hereges samaritanos.

Mas acho que isso vale diante de qualquer forma piedosa de exclusão, especialmente de quem, como a religião, prega aos quatro cantos o acolhimento como elemento espiritual.

Hoje eu estive pensando sobre isso: não busque acolhimento em nenhum espaço, por mais belo e espiritual que seja, onde tenham se esquivado de você, desprezado você. Não merece seu amor. Não é seu próximo. Tudo que você deve destinar a esse lugar é desprezo igual ao que lhe tributaram.


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