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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

A que custo?

Dia desses eu sonhei que, convidado por um amigo, estava com um grupo à porta de um lugar belíssimo: uma gruta, à beira-mar, luzes baixas e coloridas, vários espaços para diversão e confraternização.  Aguardávamos em um ambiente como uma sala de espera, do outro lado de uma porta de onde podíamos ver aquela beleza encantadora.


No sonho, propus ao grupo que entrássemos, dizendo que estávamos ali para aquilo mesmo. Um homem mais velho, que nos liderava, respondeu com uma pergunta: "A que custo?"  Aquilo me acordou e deixou vívido o sonho, sua memória, suas luzes, seus cheiros em minha mente.

Aquela pergunta não era sobre serem caras eram as coisas naquela gruta.  Aquela pergunta me atravessou, me instigou. A que custo? O que perderíamos, o que seria de nós, se entrássemos naquela gruta.

Aquele lugar seduzia. Era como a beleza de uma armadilha posta diante de nós para nos matar.  Era uma gruta à beira-mar e logo entendi que entrar ali, curtir aquela beleza, aquela luz baixa e colorida, a bebida e a comida de qualidade teria sido mortal. A gruta em breve se alagaria, inundaria e nos deixaria presos e afogados. 

O sonho me fez pensar que existem escolhas que podem parecer agradáveis e corretas, lugares que parecem lindos e encantadores, espaços de inspiração e alegre contágio, escolhas que parecem as melhores, mas que afinal nos deixam presos em uma gruta que vai nos afogar. "A que custo?"

Aquele lugar reluzia.

Acho que é sinal de maturidade prestar atenção no custo que nos cobra a vida a partir de nossas escolhas.  Será que estou disposto a pagar? Será que tenho condições?

Mais que isso: aprendi com o tempo a perceber que existem escolhas cujo preço é impossível de ser pago - porque o preço é a vida. Existe um custo que é a nossa própria morte. Existem convites que nos levam a sermos afogados numa gruta linda. É preciso reconhecer o meu limite. Não posso pagar esse custo.

Estar ali pode ser bom, agradável por um tempo mas estar ali é assumir um pacto com minha própria morte. A caverna vai inundar e eu, bem, não tenho chances de escapar.

Por muito tempo e muitas vezes, a escolha que fiz foi pela beleza sedutora da caverna. Escolhas que me levaram somente a dor e sofrimento, escapando da morte umas tantas vezes que aprendi que tem custo que não vale a pena.

Aquele lugar era bom e bonito? Que custo eu pagaria para permanecer nele?  Foi isso que o sonho me lembrou.

Mas ele também me aponta que tem um custo escolher a vida e não a morte. Eu quero viver e este é o custo. Que custo?   Esse custo é o que vale a pena ser pago.


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