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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

As coisas que aprendi com a minha Anne



O processo de educação não se restringe ao ambiente escolar e também não tem uma mão única. A gente aprende e ensina ao mesmo tempo. E quando em ambiente familiar, aprende a ser, sendo. Os filhos vão aprendendo a ser filhos, os pais vão aprendendo a ser pais. Todos erram, todos acertam, todos crescem, todos aprendem.
Entre lágrimas e risos, terminei uns dias atrás de assistir “Anne with an E” da Netflix. Uma série instigante que me fez o tempo todo pensar nas lições que podemos aprender no processo de ensinar. Por isso, eu queria falar sobre as coisas que aprendi com a minha Anne.
Aprendi com a minha Anne que o opressor tem mais poder sobre nós quando nós nos rendemos.  A força que que nos empurra para sermos subjugados gera uma força igual e oposta que se converte em energia de luta e em imaginação.
Por isso, também aprendi com a minha Anne a beleza da criatividade e da arte. Das invenções com papéis, os desenhos dos amigos, a fabulação das coisas lindas que nos cercam e não vemos,
A minha Anne me ensinou o poder da resiliência diante de tantas coisas que muitas vezes dá errado em nossas vidas. Ainda que seja vital mergulhar na dor e na angústia da frustração e do desespero, é possível encontrar o caminho de saída na invenção e na poesia à venda.
Aprendi com ela também como é linda a amizade sem preconceito. Mas aprendi também a importância de lutar contra os preconceitos. E isso começa com uma dose cavalar de empatia, destacadamente contra os excluídos, os proibidos, os ameaçados da sociedade.
Aprendi que a liberdade de expressão é um direito humano. Que a equidade de gênero é uma necessidade. Que o racismo e a homofobia são violências inaceitáveis.
Vi a minha Anne defender da violência um amigo exposto ao bullying homofóbico na escola.
Vi a minha Anne defender a liberdade de expressão contra aqueles que acham necessária a violência repressiva, fechando jornais e calando vozes. 
Vi a minha Anne sorrindo e chorando diversas vezes - e quando não reclamava do cabelo e das sardas, questionava suas próprias bochechas. 
Eu a vi resistir contra o bullying que sofreu, finalmente tentando fazer com que aquilo que lhe era dito não lhe afetasse. Mas afetava.
À essa altura, no entanto, nem sei mais onde termina Anne e onde ela se tornou só mais uma tela por onde eu vejo minha filha. Talvez Anne seja só uma metáfora que significa Alice.

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