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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Marcelo Coelho: Panelas para todos

Por Marcelo Coelho

Passar o fim de semana com filhos ainda pequenos (11 e 12 anos) não garante um alto coeficiente de atualização política.

O que fiz no domingo? Participei de um jogo de futebol pela manhã, almocei num restaurante (de classe média é que não era), insisti em banhos e lições para finalmente lastimar a derrota do São Paulo Futebol Clube (corintiano é que não sou).

Depois de uma intoxicação de videogames e seriados de TV, pedi o delivery (que não era da lanchonete da esquina) e curti, como tenho feito nestes dias, a chuva e a frente fria.

Mas o que eram aqueles corintianos perturbando o meu domingo? Conheço-os de outros jogos: expressam-se num vozerio pastoso, inarticulado, bezerral. "Chupa, Rogériôô", "Bambê, vai se f...", "Curintchaa".
O barulho continuava um pouco além da conta; fui olhar pela sacada. No prédio vizinho, alguém apontava uma filmadora.

Avisaram-me pelo interfone que a comida tinha chegado. Perguntei ao entregador se sabia o que estava acontecendo. Da moto, ele não tinha visto nada.

Foi o porteiro quem explicou: a presidente Dilma discursava pela televisão. A gritaria não era de corintianos; era protesto contra o governo, numa rua residencial do Pacaembu.

Muito bem. Se o que eu tinha ouvido for a voz da "elite branca", pensei, o país está mesmo perdido.

Mas é o que afirma, de bate-pronto, o lado pró-Dilma. Substitua-se o clichê "elite branca" pela expressão, mais neutra, "classe média alta". A frase fica mais verdadeira, mas nem por isso os seus pressupostos são inatacáveis.

Na versão corrente, tudo seria expressão de um ódio de classes "jamais visto na história do país".

Os protestos aconteceram em bairros de gente rica; nada se ouviu em Cidade Tiradentes ou Arthur Alvim. Quanto à "mídia", esta superestimou, com prazer, a manifestação.

Há muita coisa errada, a meu ver, nesse conjunto de avaliações. O panelaço virou notícia não apenas porque a imprensa critica (como é sua função) o governo federal.

Virou notícia porque foi surpresa, e foi aviso. Não é trivial que tanta gente atenda, simultaneamente, a conclamações do Facebook.

A marcha marcada para domingo (15) começa a ser levada a sério.

Ninguém protestou em Cidade Tiradentes? Que seja. Mas seria melhor se quem afirma isso estivesse escrevendo de lá.

Ser pobre não garante, de resto, altos índices de acerto na preferência política: o eleitorado de Tiririca não mora nos Jardins. E muitos dos defensores de Dilma são tão brancos, e tão de "elite", quanto os seus opositores. Até mais de elite, quando penso na troglodice e na vulgaridade do antipetismo.

Ódio de classe? Em parte, sim. O preconceito contra Lula foi evidente. "Nunca antes visto na história do país"? É esquecer Vargas e Goulart.

Há divisão entre pobres e ricos? Claro que há; estatisticamente, os mais pobres votam no PT. Mas é absurdo imaginar que sejam ricos todos os eleitores de Aécio Neves.

Também podemos falar de divisão entre os mais e os menos instruídos. Bresser Pereira adota o primeiro critério e Fernando Henrique Cardoso, o segundo.

Quem haveria de dizer que terminariam em posições opostas? A coruja de Minerva, como dizia Hegel, só levanta voo ao cair da noite. Essa também é a hora em que tucanos dão cabeçadas uns nos outros.
Apesar dessas críticas aos dilmistas, não acho que o outro lado seja um primor em matéria de lógica.

Derrubar Dilma –que acabou de ser eleita– não me parece viável nem correto, mas pode fazer sentido para quem acredita que a presidente é responsável pela corrupção na Petrobras. Será mesmo esse o melhor resumo da história? Vale arriscar a possibilidade de um Temer, ou de um Lula de volta?

O movimento faria sentido também para os eleitores de Dilma que se sentiram logrados com o ajuste recessivo. Mas são estes os autores do panelaço?

O antipetista, que criticava Guido Mantega, passa a criticar Joaquim Levy, seu inverso. Já o petista, que se descolava de Dilma, redobra agora seu apoio. Na luta "ética" e "antiortodoxa" para enfraquecer o PT, tucanos aplaudem Renan Calheiros e Eduardo Cunha.

Eleitores de esquerda e de direita correm o risco de se ver traídos –seja por um petismo desfigurado e patético, seja por um peessedebismo moderado demais para o gosto da freguesia. Não é só Dilma: muita gente cabe na mesma panela

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