No Blog de Jamildo
Não se sabe se houve uma relação direta ou se foi apenas coincidência. Na reta final da campanha,
Armando Monteiro Neto (PTB) esteve na Ceasa para reclamar de sujeira no local.
Na operação Zelador, da Polícia Federal, os grampos da instituição
põem em evidência, mais uma vez, e sob suspeita, o papel do presidente
da Ceasa, Romero Pontual, apontado no meio político como um dos
operadores das campanhas socialistas. Nos relatórios, Romero Pontual é
apresentado como uma ponte com os políticos e empresários. “Mantém
contatos com políticos como Inocêncio Oliveira e a deputada Ana Arraes,
empresários, deputados, vereadores, secretários de Estado e muitos
políticos do interior que telefonam a todo momento pedindo orientações e
favores. Impressiona a boa vontade de Romero Pontual em atendê-los”,
descreve a PF.
PF apurou suposto esquema de corrupção no governo Eduardo Campos
Suposta quadrilha tentou emplacar Jordão Emerenciano como vereador do Recife para fazer negócios com Prefeitura, diz PF
Grampos da PF apontam como funcionava suposto esquema de corrupção em Jaboatão
Grampos da PF: Em Jaboatão, chantagem política na Câmara Municipal impulsionava ação de quadrilha com licitações públicas
Grampos da PF: Esquema de Jaboatão infiltrou-se no Estado para fraudar licitações na Educação de Eduardo Campos
Neste trabalho de escuta, acabou sendo monitorado todo o núcleo duro
do governo Eduardo, em boa parte do primeiro ano de gestão e depois, a
exemplo do então secretário de Administração, Paulo Câmara, o então
procurador Geral do Estado, Tadeu Alencar e o então secretário executivo
de Educação, Nilton Mota. Paulo é o governador eleito do Estado. Tadeu
Alencar elegeu-se deputado federal e Nilton Mota elegeu deputados
estadual. “O principal contato de Romero era Nilton Mota, chefe de
gabinete de Danilo Cabral”, observam.
Nesta parte dos documentos, a PF não aponta crime especificamente.
“Na realidade, não se pode afirmar, a princípio, a existência de
ilegalidade no processo. O fato de a Cesa ser uma organização social
possibilita, em primeira análise, a dispensa de licitação neste caso. O
contexto serve para demonstrar a força de Romero Pontual junto aos
órgãos públicos. É o assunto que mais tem ocupado este alvo
ultimamente”. A Ceasa, no caso, finalizava negociação para um contrato
milionário com a Secretaria de Administração.
O contrato rendeu o valor global de R$ 4,3 milhões em um ano a Ceasa.
O objeto era a contratação da OS Ceasa para execução dos serviços de
armazenamento e garantia de material da Secretaria de Educação, no valor
unitário de R$ 42,30 por metro quadrado armazenado. “O contrato é por
metro cúbico. Se eu deixar lá 5, eu ganho normal. Se eu deixar lá 20
metros cúbicos, eu ganho muito dinheiro. É bom para o governo”, explica,
nos grampos. A PF dá pistas de suspeitar que a intenção era, via OS,
possivelmente ajudar políticos, mas não reuniu provas, pelo menos nesta
fase.
Influência na PGE
De acordo com a PF, sem setembro daquele ano pode-se constatar a
influência de Romero Pontual sobre a PGE e como consegue com Tadeu
Alencar direcionar o processo para que uma procuradora (Taciana Xavier)
opine favoravelmente a favor da dispensa de licitação. “O nosso amigo
Danilo (Secretário de Educação) tá muito complicado”, argumenta.
Para a obtenção do contrato, Romero Pontual, além de Tadeu Alencar,
recorreu ao engenheiro Aluísio Maluf. “Aluísio Maluf é muito amigo de
Romero Pontual e importante, é marido de Taciana. talvez por isto tenha
feito a intermediação”, desconfia a PF, de acordo com os relatórios
parciais da investigação. “A proposta apresentada é menor do que
atualmente praticada pela TCI. Ao escolher (a Ceasa) a Secretaria de
Educação estaria apoiando mais uma organização social com a mais
estreita ligação ao desenvolvimento de Pernambuco. A Ceasa, ao longo da
história”, anota a PF. Romero Pontual depois comemorou. “tanto a merenda
(Norlog) quanto suprimento (TCI) a menina (Taciana) deu parecer
amplamente favorável”, comentou, com uma pessoa identificada como
Getúlio. “Quem tem Romero Pontual na frente, ne?”, diz o interlocutor.
Administração, com Paulo Câmara
Depois da PGE, Romero Pontual vai influenciar na etapa da Secretaria
de Administração, onde o processo estava tramitando. Romero Pontual
tratava diretamente com Paulo Câmara. “Pede para ele (Zé Neto) fazer o
que tem que fazer e mandar de volta para a Educação”, pede em um
telefonema a Paulo Câmara. Nestas eleições, em uma fase em que a
campanha de Paulo Câmara parecia não engrenar, Zé Neto saiu da PCR e
virou coordenador da campanha do socialista.
Nas tratativas com Paulo Câmara, Romero Pontual explica o processo
detalhadamente, no dia 10 de outubro de 2007, além de reclamar de um
aditivo exigido por um funcionário da Secretaria de Administração de
nome Breno Coelho. “Esse Breno é um filho da puta”, ao comentar as
tratativas, em que recorreu também a Zé Neto, na Administração.
“Eu entrei para ajudar Danilo (Cabral)”, comentava. “Eu assumi sem
contrato, na raça, pelo governo. Tô com contrato feito, pagando dois
armazéns de 22 mil metros cúbicos, pagando funcionário, etc. Se for para
demorar, eu vou entregar a Danilo Cabral. Breno sentou encima. Tá
foda”, disse, de acordo com a transcrição dos grampos.
O parecer saiu rápido. No dia 12 de outubro, Paulo de Tarso, da área
técnica da Ceasa, avisa o chefe que saiu no DO, com a Administração
reconhecendo e ratificando a dispensa para contratar a Ceasa. Paulo de
Tarso conta, nos grampos, que meteram uma pilha no rabo de Breno. Em
conversa anterior com uma pessoa identificada como Rodrigo, da TCI,
Tecnologia de Conhecimento e Informação (responsável por suprimentos),
Romero Pontual havia prometido resolver tudo até 10 de outubro.
“Paulinho já deu a ordem que quer o negócio pronto para publicar
quarta-feira”. A assinatura do contrato com a Educação saiu no final
daquele mesmo mês.
Romero Pontual, nos grampos, comenta as dificuldades passageiras com o
empresário Paulo Avalone, diretor da Nutrir Alimentos, mais conhecida
como Natural da Vaca. “Romero pode ter pedido que interviesse junto a
Paulo Câmara em troca de eventuais favores relativos a leite”, suspeitou
a PF.
Grampos em 2008 também
A PF seguiu na cola. No dia 30 de outubro de 2007, o Diário de
Pernambuco publica uma reportagem informando que a merenda escolar iria
mudar na rede pública, no próximo ano. No dia 11 de novembro, Romero
Pontual pede a Nilton Mota que dê uma olhada, levantando novas
suspeitas. “Atentar para possível fraude na licitação relativa a merenda
escolar, envolvendo a Ceasa e a Seduc”, diz o relatório. Em uma
conversa telefônica com Nilton Mota, no dia 05 de outubro, ao meio dia,
Romero Pontual fala em tomar o contrato de merenda da empresa Norlog, em
2008, já que em dezembro daquele ano não dava mais. Desde o dia 11 de
outubro, o delegado Bernardo Gonçalves de Torres pediu a Justiça a
prorrogação e ampliação dos alvos.
Entenda a polêmica
Um inquérito aberto em 2007 pela Polícia Federal em Pernambuco – de
número 433 e que inicialmente tinha por objeto apurar supostas
irregularidades com jogo do bicho – acabou flagrando um possível esquema
de tráfico de influência e corrupção no Governo do Estado, na gestão
Eduardo Campos, com participação de políticos, além de vários
funcionários de segundo escalão do Estado. Após as investigações, pelos
menos dois processos foram enviados à Justiça Federal e à Justiça de
Pernambuco, desde 2013.
De acordo com as investigações, o elo entre as duas instâncias e os
dois casos foi o empresário Severino Jordão Emerenciano Júnior, que
acabou gerando duas outras operações de investigação denominadas Farda
Nova e Zelador.
A PF confirma a existência dos inquéritos, mas não informa detalhes
das operações. Jordão Emerenciano era sócio-gerente de uma casa de
câmbio e, em 2008, chegou a ser candidato a vereador no Recife pelo
PSDB, mesmo partido do deputado investigado e um vereador de Jaboatão
dos Guararapes.
Em nota enviada ao Blog de Jamildo, o Ministério Público Federal
informou que os crimes federais já estão sendo apreciados pela Justiça
Federal. O caso corre em segredo de Justiça.
No que toca aos desdobramentos estaduais, a Justiça Federal informou
que o caso chegou a ser levado ao Tribunal Regional Federal da 5ª
Região, no Recife, por conta da suposta participação do deputado tucano.
Desde março de 2013, por decisão do TRF5, o caso passou a ser tratado
pela Justiça do Estado, consequentemente com atuação do Ministério
Público de Pernambuco. O MPPE encaminhou pelo menos uma ação ao
Judiciário.
Deste processo inicial, repassado pelo MPF e PF, a partir do
inquérito 433/2007, o MPPE ajuizou uma ação penal na 1ª Vara Criminal da
Justiça de Jaboatão dos Guararapes, para apuração de possíveis crimes
de corrupção na Câmara dos Vereadores e Prefeitura Municipal de Jaboatão
dos Guararapes.
O processo tem como objeto corrupção ativa e formação de quadrilha.
Há uma dezena de acusados, cujos nomes podem ser visualizados pelo site
do TJPE. O destaque é o nome do ex-vereador de Jaboatão dos Guararapes
pelo PSDB Geraldo Cisneiros.
O TJPE informou, por meio de sua assessoria, que o juiz recebeu a
denúncia, mas não há uma decisão ainda. O caso tem audiência marcada
para 18 de novembro.
Justiça Federal
Também a partir do inquérito 433/2007, no plano federal, Jordão
Emerenciano Júnior foi acionado em outubro de 2013 ainda, sob a acusação
de lavagem de dinheiro e falsificação de documentos.
Na condição de sócio, Jordão Emerenciano estaria gerindo
fraudulentamente instituição financeira, a corretora de câmbio Didier e
Levy em Pernambuco. Além de operar câmbio clandestino, o empresário é
acusado de corrupção ativa.
Jordão Emerenciano contou com a ajuda do então gerente-geral da
agência da Caixa Econômica Federal em Jaboatão dos Guararapes, Otto
Schmidt Neto. O funcionário público teria colaborado, em outubro de
2006, para a abertura de movimentação de contas sob nomes falsos ou de
pessoas inexistentes, em agência sob responsabilidade. Com o artifício,
Jordão Emerenciano poderia ir além do limite oficial que lhe era
estabelecido para a troca de moeda estrangeira.
Derivado do mesmo IPL 433/2007, o processo foi instruido por
determinação do desembargador do TRF5 Rogério Fialho Moreira. O caso é
julgado pelo juiz federal César Arthur Cavalcanti de Carvalho, da 13ª
Vara Federal.
Ao lado da Frente Popular, Aécio faz carreata em Sirinhaém. Foto: BlogImagem
Blog de Noélia
Informações sobre essas denúncias vieram a público no blog de Noélia
Brito – que já colaborou com o Blog de Jamildo e é militante do PT – a
partir de fragmentos dos trechos dos grampos da PF, logo depois do
primeiro turno das eleições presidenciais, quando o PSB de Eduardo
Campos derrotou a aliança PTB/PT no Estado de Pernambuco. No plano
nacional, com a derrota de Marina, o PSB anunciou aliança com o PSDB de
Aécio Neves.
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