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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Jesus, a marcha e a ditadura

O assunto do dia é a reedição da Marcha da Família com Deus. Em 1964, quando 200 mil pessoas se reuniram em torno da marcha, aquilo significou uma espécie de aval civil aos planos de derrubada do presidente João Goulart.
Isso me fez pensar em algumas coisas.
Foi o sentimento de uma certa concepção religiosa que motivou aquelas pessoas.
Depois, sob ditadura, os militares tinham poderosos aliados nas igrejas cristãs. Entre presbiterianos e batistas, por exemplo, as presidências denominacionais eram adeptas da política de segurança nacional, capazes de entregar à repressão seus líderes e fiéis críticos ao regime. Muitos, como Rubem Alves, teólogos produtivos e que se opunham à teologia ligada ao regime, foram expulsos de suas igrejas. 
Muitos cristãos foram torturados, massacrados, mortos.
Enquanto as igrejas faziam cultos em ações de graça pela "Redentora", fiéis eram perseguidos e desaparecidos.
Isso me faz pensar em Jesus, aquele judeu torturado e executado pelo império Romano em conivência com a liderança religiosa judaica.
Jesus foi morto por sedição. Não apenas isso: foi torturado e massacrado. A liderança religiosa rejeitou suas idéias e concepções teológicas - foi acusado de herege. 
Jesus, desse modo, não estava naquela marcha de 64 nem na marcha de hoje. Muito menos, Jesus combinaria com o discurso das igrejas da ditadura em sua defesa. Sua identidade, seja pela mensagem de libertação, seja pela vida - tortura, sofrimento e morte -, se relaciona com cada um que tenha sido perseguido, chamado de subversivo ou herege, torturado, violentado, morto ou desaparecido. 
Jesus não estava nas pregações das igrejas, mas pendurava-se em cada pau-de-arara, levava cada choque elétrico, sofria cada violência, cada estupro. Morria com cada jovem que deu sua vida por um país melhor.
Meu pai contava de um de seus torturadores que enquanto aplicava choques nas suas vítimas, lia a Bíblia e falava em Jesus.
Além da perversão doentia, a contradição. Como Jesus, meu pai era violado em sua dignidade por doutores da lei - que, terrivelmente, agiam no nome daquele que sofria com meu pai.

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