Depois de celebrar missa ao lado do sistematizador da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez, o Papa Francisco continua avançando.
Na entrevista sobre a qual o Globo fala no texto que reproduzo abaixo, ele afirma que nunca foi de direita e vai adiante.
No Globo
O Papa Francisco disse em uma extensa entrevista publicada em uma
revista católica que a Igreja tem o direito de manifestar as suas
opiniões, mas não pode interferir espiritualmente nas vidas de gays e
lésbicas, expandindo seus comentários sobre um assunto que divide
clérigos. O Pontífice criticou religiosos cada vez mais obcecados em
pregar sobre o aborto, casamento gay e contracepção - e disse que
escolheu não falar sobre isso.
Na
entrevista, divulgada por revistas jesuítas em 16 países e em
diferentes línguas, Francisco afirmou que nunca foi de direita, e que as
mulheres devem ter um papel maior nas decisões da Igreja. Ele defendeu
ainda que a Santa Sé encontre um equilíbrio maior entre as missões
espirituais e políticas, advertindo que, caso contrário, a base moral da
instituição poderia desabar como um castelo de cartas.
“Uma casa para todos”
Numa
linguagem direta, Francisco afirmou que a Igreja deve ser “uma casa
para todos”, e não “uma pequena capela” concentrada na doutrina, na
ortodoxia e numa agenda limitada de ensinamentos morais.
“Não é
necessário falar sobre essas questões todo o tempo”, disse o Pontífice
ao reverendo Antonio Spadaro, jesuíta como o Papa e editor da revista
“La Civiltà Cattolica”. “Os ensinamentos morais e o dogma da Igreja não
são equivalentes. O ministério pastoral não pode ser obcecado com a
transmissão de uma gama de doutrinas desconectadas a serem impostas com
insistência.”
A entrevista ocorreu durante três encontros em
agosto, nos aposentos espartanos de Francisco na Casa Santa Maria, uma
hospedagem do Vaticano para religiosos. Francisco preferiu viver ali do
que isolado no Palácio Apostólico, onde ficavam seus antecessores.
Os
comentários do Papa não rompem com a doutrina católica, mas mostram uma
nova abordagem, passando da censura ao engajamento. Segundo Francisco,
sua primeira missão é mudar a atitude da Igreja.
“A Igreja algumas
vezes se aferra a coisas pequenas, regras de mentes fechadas. O povo de
Deus quer pastores, não clérigos que atuem como burocratas ou
funcionários do governo.”
Um pecador que reza na cadeira do dentista
Logo
no início da entrevista, Spadoro perguntou: “Quem é Jorge Mario
Bergolio?” E o Papa respondeu: “Eu sou um pecador. Essa é a definição
mais precisa, não é figura de linguagem”.
Embora não tenha
revelado seus pecados, contou aspectos pessoais: Francisco reza na
cadeira do dentista; ele se sentiu aprisionado no Palácio Pontifício;
ama Mozart e Dostoievski e tem uma queda por filmes italianos - “La
Strada”, de Fellini é o seu favorito.
As palavras do Papa devem
ter repercussão em uma igreja na qual bispos e padres em muitos países
criticam duramente o aborto, casamento homossexual e contracepção. Estes
pontos são claros para Francisco, “como filho da Igreja”, mas devem ser
apresentados em um contexto mais amplo. “A proclamação do amor salvador
de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”, afirmou.
“Uma
pessoa me perguntou, de jeito provocador, se aprovava a
homossexualidade. Respondi com outra pergunta: ‘Diga-me: quando Deus
olha para um homossexual, ele aprova a existência dessa pessoa com amor
ou a rejeita e a condena?’ Devemos sempre considerar a pessoa.”
Mudança sem pressa e improviso
Sobre
as mudanças na Igreja, o Papa disse que é preciso de tempo para que
elas sejam verdadeiras e eficazes. E que desconfia das decisões tomadas
com improviso:
“São muitos os que querem que as mudanças e as
reformas cheguem brevemente. Eu sou da opinião que é necessário tempo
para que se tenha as bases de uma mudança verdadeira e eficaz...eu
desconfio das decisões tomadas de forma improvisada. Desconfio da minha
primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça quando
devo tomar uma decisão. Costuma ser um erro. É preciso esperar, avaliar
internamente, tomar o tempo necessário.”
Francisco defende uma
relação de proximidade com os fiéis e afirma que a Igreja deve
desenvolver com urgência a capacidade de “curar feridas e dar calor aos
corações dos fiéis”.
“Eu vejo a Igreja como um hospital de
campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido se tem
níveis elevados de colesterol ou açúcar. Temos que curar as feridas.”
O Papa destaca a importância da ampliação da presença feminina na Igreja e do combate ao machismo:
“Temo
a solução do ‘machismo de saias’, porque a mulher tem uma estrutura
diferente da masculina. Mas os discursos que escuto sobre o papel das
mulheres são frequentemente inspirados em uma ideologia machista. As
mulheres estão formulando perguntas profundas que devemos enfrentar. A
Igreja não pode ser ela sem a mulher. A mulher é essencial para a
Igreja. Maria, uma mulher, é mais importante do que os bispos.”
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