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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

#MaisMedicos: O que o episódio fala sobre a comunicação e a política da categoria médica

Vi há pouco um divertido comentário de um médico. Ele atribuía o apoio da população ao Mais Médicos (73%) a uma lavagem cerebral.
Tal comentário reforça minha percepção que os médicos provaram nesse episódio conhecerem nada de política e de comunicação.
Desde o início da reação raivosa dos médicos, enquanto categoria, ao programa, eu dizia que eles estavam caminhando para ser a categoria mais detestada do país. E para isso não precisaram nem de propaganda do governo nem do discurso político.
Um mínimo de simancol contra as suas próprias atitudes poderiam ter evitado esse quadro.
Esqueça quem é o governo da ocasião ou o que você pensa do programa. Falamos sobre um projeto que oferece uma solução para uma dimensão do problema da saúde no país - justamente a falta de médicos. Todo o problema da saúde é esse? Evidente que não. O povo sabe disso mas também sabe o tempo de fila que já esperou por um médico que não veio - ou atrasou.
Evidentemente que, mesmo sem refletir muito profundamente, a princípio a opinião pública em geral apoiaria a ideia.
O que fazem os médicos? Fazem raivosos discursos contra.
Qualquer mediano analista da situação política, diante desse quadro, recomendaria a mesma coisa ao governo: nesse momento inicial, haverá um desgaste do governo e da proposta, mas se o governo escolher fincar pé, a situação se reverterá, especialmente quando os médicos chegarem aos confins do país.
Eu apostaria que os médicos perceberiam que haveria um limite no esticar a corda. A partir de certo ponto, o discurso contra o programa passaria a ser visto apenas como má-vontade. Afinal, ao abrir a inscrição para salários de até 10 mil reais (coisa que a grande maioria da população desconhece como salário), a prioridade foi dada aos médicos brasileiros.
Nesse ponto, a coisa virou.
Muitos denunciaram ações de sabotagem contra o programa, como o número de CRMs inexistentes pelos médicos que se inscreveram. E aí vieram as pérolas ditas/feitas por presidentes de CRM: no Ceará, aquela ação racista contra os cubanos que chegaram; em Minas Gerais, a fala de que os médicos não corrigiriam eventuais erros cometidos pelos estrangeiros.
Aí já não tinha mais volta. Foi quando eu brinquei algumas vezes perguntando se havia algum médico disposto a receitar chá de simancol para os colegas.
O povo conhece a realidade dos médicos que batem o ponto e não vão trabalhar, dos que chegam atrasados, dos que não olham os olhos do paciente, dos que são incapazes de realizar exames clínicos ou ouvir as pessoas. Essa realidade foi, mais uma vez, mostrada pela imprensa.
Enquanto isso, os médicos rasgavam comentários personalíssimos e raivosos contra o governo e contra o programa, sem perceber que crescia o apoio ao programa e ao governo. Eles se isolaram.
Os médicos se isolaram sozinhos.
E isso é também fruto de uma postura profissional que tende a se colocar como profissional acima das demais categorias da saúde - vide a discussão sobre o ato médico. São profissionais que no serviço público pretendem ganhar mais que outras categorias de nível superior da saúde - e que, por isso, em lugares como no Amazonas, como me contou uma médica de lá, há quase vinte anos pediram demissão do serviço público, fundaram uma cooperativa e agora são contratados por meio dela. Ponto final do SUS.
Falta percepção de política e de comunicação aos médicos. Se tivessem, não se permitiriam chegar a esse ponto. Esticaram a corda, sem perceber o que viria a partir daí, quais os efeitos. Deixaram a emoção individual contaminar a avaliação do cenário.
Não é de se estranhar, uma vez que já ouvi de um de seus a afirmação que não levam em consideração a graduação ou doutorado na área de humanas. Provam que precisavam trabalhar na sua graduação com alguns conteúdos de comunicação e ciências sociais.

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