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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Do porquê a ideia de neutralidade e a imparcialidade jornalísticas deveriam ser esquecidas

Publicado originalmente no Portal No Minuto

Imparcialidade e neutralidade são duas palavras muito afeitas ao campo jornalístico. Próximas a uma visão objetivada e positivista do jornalismo, surgida no contexto do desenvolvimento de um modelo norte-americano da profissão - difundido mundo afora.

Nessa visão, o jornalismo foi pensado, em seus formatos e regras, na mesma dimensão das ciências exatas em explosão no fim do século XIX. Desse modo, a atividade profissional foi imaginada como que representando fiel e objetivamente a realidade dos fatos.

O pesquisador português Nelson Traquina, uma das referências contemporâneas no estudo do jornalismo, disse certa vez em uma aula na UFRN que quem entende de "realidade dos fatos" é gastroenterologista.

Por isso mesmo, ele é um dos que contribuiu, no Brasil, para que percebêssemos que essa primeira corrente teórica do jornalismo (Teoria do Espelho) é, na verdade, um constructo ideológico. É a ideologia do jornalismo, na sua tentativa de se afirmar como importante, relevante, etc, que afirma que o campo reflete a realidade com imparcialidade e neutralidade.

Eu, no entanto, costumo dizer a meus alunos que as noções de imparcialidade e neutralidade deveriam ser jogadas no lixo do campo jornalístico. Imparcialidade e neutralidade são construções ideológicas. Ao enunciar qualquer texto ou discurso, o sujeito já se posiciona quanto a ele. Não existe, portanto, discurso neutro ou imparcial. Falar é tomar um lado, valorar um contexto ou uma posição, pondo no chão qualquer tentativa de neutralidade ou imparcialidade - que não funcionam sequer como objetivos ou utopias.

O objetivo e a utopia são o tratamento ético, coerente e de acordo com o arcabouço ferramental do jornalismo. Sem fingir incoerentemente que nem o veículo nem o jornalismo tem lado.

É por isso que logo de início também deixo claro a todos os alunos - e acredito que o fazem todos os professores de jornalismo - que a vida profissional costuma se submeter à linha editorial (ou seja, à visão de mundo e à ideologia) do jornal, da tevê ou do portal que o contrata. A não ser que o jornalista prescinda de ser empregado de alguém, o seu posicionamento emitido - parcial e ideologicamente - vai, às vezes, pouco corresponder ao que ele pensa, reafirmando as posições ideológicas e a visão do mundo do padrão.

A luta pela democratização da mídia e pela mais ampla liberdade de expressão, por isso mesmo, passa pela luta para que seja garantido um tratamento ético e dentro das regras profissionais a toda informação e toda notícia. Além disso, deve significar, também, a garantia ao direito de livre expressão individual a todo sujeito e/ou movimento social - seja no acesso ao espectro da radiodifusão seja, por exemplo, na liberdade e neutralidade da Internet.

Por isso, fundamental para democracia, a democratização da comunicação deveria ser a luta de todos.

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