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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Do porquê a ideia de neutralidade e a imparcialidade jornalísticas deveriam ser esquecidas

Publicado originalmente no Portal No Minuto

Imparcialidade e neutralidade são duas palavras muito afeitas ao campo jornalístico. Próximas a uma visão objetivada e positivista do jornalismo, surgida no contexto do desenvolvimento de um modelo norte-americano da profissão - difundido mundo afora.

Nessa visão, o jornalismo foi pensado, em seus formatos e regras, na mesma dimensão das ciências exatas em explosão no fim do século XIX. Desse modo, a atividade profissional foi imaginada como que representando fiel e objetivamente a realidade dos fatos.

O pesquisador português Nelson Traquina, uma das referências contemporâneas no estudo do jornalismo, disse certa vez em uma aula na UFRN que quem entende de "realidade dos fatos" é gastroenterologista.

Por isso mesmo, ele é um dos que contribuiu, no Brasil, para que percebêssemos que essa primeira corrente teórica do jornalismo (Teoria do Espelho) é, na verdade, um constructo ideológico. É a ideologia do jornalismo, na sua tentativa de se afirmar como importante, relevante, etc, que afirma que o campo reflete a realidade com imparcialidade e neutralidade.

Eu, no entanto, costumo dizer a meus alunos que as noções de imparcialidade e neutralidade deveriam ser jogadas no lixo do campo jornalístico. Imparcialidade e neutralidade são construções ideológicas. Ao enunciar qualquer texto ou discurso, o sujeito já se posiciona quanto a ele. Não existe, portanto, discurso neutro ou imparcial. Falar é tomar um lado, valorar um contexto ou uma posição, pondo no chão qualquer tentativa de neutralidade ou imparcialidade - que não funcionam sequer como objetivos ou utopias.

O objetivo e a utopia são o tratamento ético, coerente e de acordo com o arcabouço ferramental do jornalismo. Sem fingir incoerentemente que nem o veículo nem o jornalismo tem lado.

É por isso que logo de início também deixo claro a todos os alunos - e acredito que o fazem todos os professores de jornalismo - que a vida profissional costuma se submeter à linha editorial (ou seja, à visão de mundo e à ideologia) do jornal, da tevê ou do portal que o contrata. A não ser que o jornalista prescinda de ser empregado de alguém, o seu posicionamento emitido - parcial e ideologicamente - vai, às vezes, pouco corresponder ao que ele pensa, reafirmando as posições ideológicas e a visão do mundo do padrão.

A luta pela democratização da mídia e pela mais ampla liberdade de expressão, por isso mesmo, passa pela luta para que seja garantido um tratamento ético e dentro das regras profissionais a toda informação e toda notícia. Além disso, deve significar, também, a garantia ao direito de livre expressão individual a todo sujeito e/ou movimento social - seja no acesso ao espectro da radiodifusão seja, por exemplo, na liberdade e neutralidade da Internet.

Por isso, fundamental para democracia, a democratização da comunicação deveria ser a luta de todos.

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