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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal






Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva.

Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda.

Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado.

Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do dano que as drogas e o álcool faziam à sua vida, mas, segundo ele, “não funcionou” porque ele não tinha forças para parar.

Nando contou também uma história que já conhecia de Pra você guardei o amor, composta em 2009 (“Pra você guardei o amor que nunca soube dar/O amor que tive e vi sem me deixar”): com a vida familiar destruída, o ruivo ouviu sua filha perguntar sobre o que ele faz do amor que as pessoas entregam a ele.
Nando disse considerar que essas músicas autobiográficas não foram suficientes na sua luta contra as drogas. E eu fiquei pensando nas práticas de si, na escrita de si e no seu papel na constituição do sujeito, ideias às quais me aproximei a partir de Foucault mas que são parte de nossa herança ocidental da Antiguidade Clássica.

Em geral, a gente não vive a vida cotidiana pensando o tempo todo sobre quem somos. Há momentos pertinentes nos quais somos instados a nos definirmos: um aconselhamento, uma sessão de psicanálise ou terapia, a escrita de um diário, o registro do dia a partir de uma perspectiva meditativa estoica, as cartas que os antigos escreviam sobre suas experiências. A escrita de si é um momento em que elaboramos quem somos, como queremos ser consttuídos como sujeitos da ética, da vida real. Quando registro minha vida e minhas relações num diário, numa carta, num poema, numa letra de música, me vejo na obrigação de pensar e escrever uma forma de definição acerca de quem eu sou ou sobre quem eu gostaria de ser. A escrita de si é o discurso que organiza a subjetividade para que ela seja melhor reconhecível pelo próprio sujeito e pelos outros.

Se eu tivesse tido a oportunidade de fazer uma pergunta hoje à Nando Reis falaria sobre suas letras autobiográficas como formas de escrita de si que constituem um sujeito da ética e da vida: e que sujeito é esse que as suas músicas constituem, Nando?

Isso também significa que, para mim, cada uma das letras com as quais Nando tratou da dor e do sofrimento de sua adicção contribuiu para que ele sobrevivesse, para que ele elaborasse, para que ele se constituisse como um sujeito que pretendia ter — e finalmente teve — forças para resistir ao vício. Se ele teve forças e sobreviveu até conseguir ter dez anos limpo é porque, em minha opinião, ele pode se estabelecer como pessoa em letras como de Os cegos do castelo ou Pra você guardei o amor.

E todos nós, fãs do Ruivo, fazemos coisa semelhante quando lemos suas músicas e nos apropriamos delas. Até hoje eu choro ouvindo Espatódea e canto dizendo Alice em vez de Zoé, porque me senti, quando ela nasceu, tal qual escreveu Nando (“Não sei quanto o mundo é bom/Mas ele está melhor/Desde que você chegou/E explicou o mundo pra mim”) e ganhei forças para resistir nos meus piores momentos porque “Não sei se esse mundo está são/Mas pro mundo que eu vim não era/Meu mundo não teria razão/Se não fosse a ‘Alice’).

Esse é outra face das práticas de si: reelaborar a experiência, inclusive estética, como mecanismo de constituição subjetiva, afinal a relação de Nando e Zoé ecoou em mim e deixou fincada em meu peito uma marca que orienta e molda em alguma medida a minha relação com Alice.

De modo semelhante, afinal, esse texto é também uma escrita de meu si sobre as experiencias vividas hoje com Nando ao lado de Alice que, a partir desse discurso, elabora e manifesta uma forma de ser de Daniel e sua subjetividade. Só me faltou entender até aqui onde você mora.


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