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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

@mdionisiom O dia em que Zanoni foi nosso herói

Por Marcos Dionísio Medeiros Caldas
Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos

Acho que era a abertura dos Jogos Internos da ETFRN. Falo de 79 ou 80.  Um professor havia sido demitido em sala de aula. Havia um clima pesado no ar da velha ETFRN. 
Também havia rusgas abafadas ainda do expurgo de alunos ocorrido meses antes.
Pois na solenidade de abertura dos Jogos Internos foi anunciada a presença do Excelentíssimo Senhor Governador Lavoisier Maia e Zanoni solitariamente arrancou o grito preso na garganta de todos nós e acunhou o Governador na vaia. 
Os bedéis, alguns com ligações notórias junto ao SNI, saíram em polvorosa, procurando localizar quem sabe pelo eco, o autor da vaia. A vaia, esse sentimento democrático, não deixara eco, mas ecoava ainda pelo ginásio inteiro. 
Zanoni foi nosso herói naquela noite de ditaduras. 
Continua a ser até hoje. 
Uma tarde de um domingo qualquer do ano de 80, fui a sua casa em Ponta Negra e ao chegar e chamá-lo não encontrei resposta, mas ouvindo barulhos fui adentrando pela porta da frente enquanto o ladrão se esgueirava pela porta de trás. Vim até o posto da Telern que ficava ali perto daquela pizzaria entre o Camarões e a feirinha e liguei para a casa do pai de Zanoni e fiquei aguardando-o. 
Não lembro mais o que foi roubado e para sufocar o susto misturamos jurubeba com cachaça e devoramos uns "pebas". 
Depois tomamos outros porres em Potilândia e ali na baixada por trás dos Bombeiros ou mesmo no Vila Velha(?) , o bar e restaurante de Dailto, onde tínhamos um prego geminado com o da cigarreira do físico empreendedor. 
A vida seguiu caminhos. 
Vez por outra nos encontrávamos e era como na música de Sílvio Silva Júnior: "salve / como é que vai / amigo há quanto tempo / um ano ou mais..." 
Agora , por volta das 19h, estavámos reunidos com uma colega da época da ETFRN, Dulce Bentes, tratando das faraômicas obras que Rosalba quer fazer na Av. Roberto Freire e alguém ligou para Dulce informando da morte de Zanoni. 
A cabeça fica a mil e bate uma indignação e um sentimento de perda terrível. 
Olhando o céu numa noite de muito calor, vejo uma estrela cintilante que nunca havia visto. 
Deve ser Zanoni. Fecho os olhos e vejo as almas sebosas dos bedéis procurando pelo eco o autor da vaia. Tá no céu, vaiando as hipocrisias infelicianas da vida.  O mundo continua precisando das suas vaias, Zanoni. "Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar....". 
(MOSQUITO)

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