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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

#ForaFeliciano: A maldição de Cam

Por Hélio Schwartsman
Na Folha de São Paulo

Ao que consta, o pastor Feliciano ganhou a pecha de racista por ter ligado africanos à maldição de Cam, narrada em Gênesis 9:20-27. Não sei se o sacerdote é ou não racista, mas, como exegeta da Bíblia, ele caiu no meu conceito.

A história é meio confusa mesmo. Cam, filho mais novo de Noé, encontrou o pai embriagado e desacordado, mas, em vez de guardar pudor e cobrir o ancião, foi logo contar o sucedido aos irmãos. Por isso, o construtor da arca amaldiçoou não exatamente Cam, mas seu filho Canaã.

No livro "A Maldição de Cam" (disponível só em inglês), David Goldenberg indica, de forma convincente, que o sentido original do texto bíblico não apresentava nenhum viés contra negros. Na obra, que é deliciosamente erudita, fazendo-nos saltar da literatura rabínica para o Alcorão, passando por lições de filologia hebraica e sermões de pastores do sul dos EUA, Goldenberg mostra que é a partir do início da Era Cristã, quando a proporção de escravos oriundos da África subsaariana coloca os negros em maior evidência, que a maldição vai ganhando interpretações mais racistas, que incluem até a fabricação de etimologias falsas ("Cam" significaria "queimado", "negro").

Quando chegamos ao ápice desse movimento, entre os escravagistas do sul dos EUA no século 19, aí sim passa a ser dado como "fato" que Deus lançou uma maldição sobre os africanos. Isso talvez não baste para provar que o pastor é racista, mas sugere que ele bebe nas piores fontes.

Quanto à Bíblia, ela parece, de fato, inocente da acusação de preconceito contra negros. É que, à época, seus autores estavam mais preocupados em nos ensinar a matar homossexuais (Levítico 20:13), nossos parentes que mudem de religião (Deuteronômio 13:7) e a vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7).

É claro que o problema não está na Bíblia, mas em achar que um livro velho possa encerrar todas as verdades morais de que precisamos.

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