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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Carandiru: resultado do júri é marco civilizatório

Por Josias de Souza



Houve um tempo em que o horror chamava menos atenção do brasileiro do que um chumaço de algodão na paisagem do pólo sul. Despertava menos interesse do que um biquíni fio dental nas areias de Ipanema. Súbito, em 1992, no massacre do Carandiru, a PM paulista executou 111 presidiários. E o país se chocou com a quantidade.

Embora respirassem, os presos do Carandiru não passavam de abstrações. Eram narizes sem rosto. Eram acidentes genéticos. Eram nada. Eliminados em conta-gotas, como de hábito, feneceriam despercebidos. Com a carnificina, renasceram de forma espetacular. Vieram à luz em meio às trevas. Atravessados pelas balas da PM, morreram. E, com a morte, ganharam vida. Obtiveram uma visibilidade hedionda.

A repentina notoriedade dos presos levou-os à vitrine. De respente, estavam no telejornal do horário nobre, nas manchetes dos jornais, no topo das revistas… Dali para as folhas da denúncia do Ministério Público foi um pulo. O ritmo de tartaruga paraplégica do Judiciário retardou o julgamento. Porém…

Na madrugada deste domingo (21), com mais de duas décadas de atraso, o Tribunal do Júri condenou 23 policiais pelo assassinato de 13 dos 111 eliminados. Somadas, as penas chegam a 156 anos para cada um. A coisa é ainda provisória. Há outros PMs por julgar. Ninguém foi em cana. Virão agora os recursos. Um, dois, três, sabe-se lá quantos! No fim das contas, pode não dar em nada. Mas o júri condenou!

Num país que celebra o bordão segundo o qual bandido bom é bandido morto, jurado condenando policial que passou presidiário nas armas não é pouca coisa. É uma espécie de marco civilizatório. A plateia mal se refez da surpresa da condenação de 25 poderosos no julgamento do mensalão e já é submetida a mais essa dose de inusitado. Mantido o ritmo, o Brasil corre o risco de virar uma nação.

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