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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O jornalismo covarde do submundo da política

Por Rogério Tomaz Jr.
No Conexão Brasília Maranhão

Na época da última ditadura civil-militar, tornou-se comum a figura do “jornalista porta de cadeia”.

Assim como advogados do mesmo gênero, que exploravam a condição desumanizada a que eram submetidos os presos do regime, muitos escribas tinham nas amizades e boas relações com agentes da repressão a grande fonte de suas matérias.

É o jornalismo coprófago, que se alimenta da dimensão mais asquerosa do ser humano, aquela capaz de retirar a condição humana de outro ser humano, prática exercida com maestria por torturadores e carrascos serviçais dos milicos.

Alguns destes, muitos, ainda hoje perambulando impunemente pelos centros de poder, mas sempre olhando assustados para trás e para os lados, receosos de serem vítimas de alguma vendetta.

Nos corredores de Brasília, hoje, em pleno 2013, há herdeiros dessa modalidade de pseudojornalismo.

Ontem (1/3), no Jornal de Brasília, mais conhecido como “jornaleco de Brasília”, uma nota do respeitado* Leandro Mazzini atestou a sobrevivência do gênero na sua coluna “Esplanada”.

Sob o título “Na mira” – clichê mais policialesco, impossível! – está dito:

“A Polícia Legislativa das duas Casas do Congresso está de olho num agitador ligado à deputada Erika Kokay (PT-DF). É um conhecido causador de tumultos.”
Jornalismo porta de cadeia sobrevive em Brasília (Foto: Reprodução do Jornal de Brasília, 01/03/2013)
O “agitador” e “conhecido causador de tumultos” – o Leandro esqueceu do “subversivo” – se chama Rodrigo Grassi. É assessor da deputada petista desde que ela era deputada distrital.

Mais conhecido como Pilha, o “agitador”, ao contrário de covardes que usam informações repassadas por órgãos policiais para fazer ameaças e pressões de origens obscuras, não tem medo de expressar o que pensa.

Quando a blogueira mercenária Yoani Sanchez passou pela Câmara, Pilha esteve lá e reforçou o coro dos que pediram a permissão de entrada irrestrita de todas as pessoas que estavam à porta do local onde aconteceu o evento com a cubana.

Após a “audiência” com a blogueira, Pilha foi fazer perguntas incômodas ao deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG), tido como o “Pai do Mensalão”. O tucano, pai inquestionável do “AI-5 Digital”, acabou arrancando à força o celular do atrevido entrevistador e chamou a Polícia Legislativa, dizendo que havia sido agredido**.
 
Foi o bastante para o jornalista Breno Costa, da Folha de São Paulo, transformar em matéria o episódio. O texto de Breno foi quase todo honesto e verdadeiro. Exceto, justamente, pelo “detalhe” que foi o mote principal da matéria: o assessor da deputada Erika Kokay “estava em horário de trabalho”, diz o texto, em sutil tom de denúncia.

Adiante, Breno informa o salário de Pilha. Ninguém precisa ser um Einstein para entender a mensagem: “o sujeito recebe dinheiro público para protestar contra a blogueira cubana em pleno horário de trabalho”.
 
Sobre o ocorrido “denunciado” pela Folha, a deputada Erika Kokay divulgou nota oficial informando que o servidor “não estava em horário de trabalho” e que ela defendia “a liberdade de expressão, que deve servir para todos, tanto para a blogueira cubana como para qualquer cidadão”.

Em que pese a abordagem matreira, pelo menos o repórter da Folha não foi covarde ao omitir o nome do “alvo” de sua matéria.
 
Coragem que faltou ao Mazzini, que difamou uma pessoa como “agitador” e ”conhecido causador de tumultos” sem citar o seu nome. E ainda fez isso usando o empoeirado jargão e fontes do submundo policial (ou político).

*Respeitado especialmente pelos políticos de Brasília, já que possui um programa de televisão e uma coluna de jornal.

**A Polícia da Câmara – muito menos truculenta e bem mais civilizada do que a do SS (Senado de Sarney) – viu as imagens e constatou que, se houve agressão, não partiu do dono do celular, mas do parlamentar.

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