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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

No avião, um passageiro não chega a seu destino - e desperta o resmungo de uma simpática moça

Por Leonardo Sakamoto
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/02/14/no-aviao-um-passageiro-nao-chegou-ao-seu-destino/


Pouco antes do avião sair de Berlim em direção a Paris, nesta quinta, um dos passageiros caiu duro no chão, algumas fileiras à minha frente. Paramédicos foram chamados e, por mais de 40 minutos, tentaram reanimá-lo. Até onde pudemos presenciar (e o corpo inerte ser levado embora), sem sucesso.

Ao meu lado, uma simpática moça resmungou entre os dentes, reclamando do homem por conta do atraso. Aflito com a situação, tive vontade de arremessar o saquinho da indisposição na direção dela mas percebi que faltaria saquinho, uma vez que o sentimento era compartilhado por outros na aeronave.

Entendo os descontentes. Ainda mais em um mundo chocantemente individualista como o nosso. No qual gostamos de celebrar a liberdade do coletivo, desde que ela não atrapalhe a velocidade de nossa marcha pessoal. Onde tudo é fraternidade, desde que esta caiba entre os nossos compromissos previamente agendados. E lutamos para que a igualdade seja respeitada – não aquela que trata do direito de todo mundo chegar ao final de sua viagem, mas a que diz que os mais necessitados e desassistidos não podem clamar por tratamento diferenciado ao longo dela. Afinal de contas, todos nós nascemos iguais perante a lei.

Dado isso, é mesmo deplorável que um sujeito estrague a noite de dezenas de presentes no avião e outros tantos que dependem dos que lá estavam. Provavelmente, pagou com a vida tal heresia.

Vida de alguém que, talvez, o esperasse e, por conta, seguirá um pouco mais sem sentido.

Vida nossa que segue mais vazia.

Pois, como lembrou Ernest Hemingway ao trazer o poeta inglês John Donne em “Por Quem os Sinos Dobram”:

Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado
Todo homem é um pedaço de um continente, uma parte da terra
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa de teus amigos ou a tua própria
A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.

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