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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

No avião, um passageiro não chega a seu destino - e desperta o resmungo de uma simpática moça

Por Leonardo Sakamoto
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/02/14/no-aviao-um-passageiro-nao-chegou-ao-seu-destino/


Pouco antes do avião sair de Berlim em direção a Paris, nesta quinta, um dos passageiros caiu duro no chão, algumas fileiras à minha frente. Paramédicos foram chamados e, por mais de 40 minutos, tentaram reanimá-lo. Até onde pudemos presenciar (e o corpo inerte ser levado embora), sem sucesso.

Ao meu lado, uma simpática moça resmungou entre os dentes, reclamando do homem por conta do atraso. Aflito com a situação, tive vontade de arremessar o saquinho da indisposição na direção dela mas percebi que faltaria saquinho, uma vez que o sentimento era compartilhado por outros na aeronave.

Entendo os descontentes. Ainda mais em um mundo chocantemente individualista como o nosso. No qual gostamos de celebrar a liberdade do coletivo, desde que ela não atrapalhe a velocidade de nossa marcha pessoal. Onde tudo é fraternidade, desde que esta caiba entre os nossos compromissos previamente agendados. E lutamos para que a igualdade seja respeitada – não aquela que trata do direito de todo mundo chegar ao final de sua viagem, mas a que diz que os mais necessitados e desassistidos não podem clamar por tratamento diferenciado ao longo dela. Afinal de contas, todos nós nascemos iguais perante a lei.

Dado isso, é mesmo deplorável que um sujeito estrague a noite de dezenas de presentes no avião e outros tantos que dependem dos que lá estavam. Provavelmente, pagou com a vida tal heresia.

Vida de alguém que, talvez, o esperasse e, por conta, seguirá um pouco mais sem sentido.

Vida nossa que segue mais vazia.

Pois, como lembrou Ernest Hemingway ao trazer o poeta inglês John Donne em “Por Quem os Sinos Dobram”:

Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado
Todo homem é um pedaço de um continente, uma parte da terra
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa de teus amigos ou a tua própria
A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.

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