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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Solidariedade não é para qualquer um

Anos atrás vi uma cena num show em Natal que até hoje me emociona.  Um grupo de moradores de rua estavam sentados alguns lugares à minha frente no anfiteatro da UFRN.  Entre eles, um mais debilitado e sem muitas roupas.  A solidariedade do grupo lhe deu aconchego e um agasalho.
Agora há pouco vi uma cena que me relembrou o episódio.
De frente a janela do quarto onde durmo há um supermercado.  Logo que cheguei, ouvi gritos vindos da rua.  Ali, na frente do supermercado, um casal brigava.  A mulher - esposa, namorada, não sei -, gritava e segurava as mãos do homem.  Após alguns minutos de tensão e gritos, ele a soltou e saiu pela rua, sem destino.  Ela, humilhada, sentou-se na calçada.  Chorava.
Por longos minutos, ela ficou ali chorando.  Sozinha.  Da janela, torcia para que alguém se aproximasse dela ao menos para perguntar se ela precisava de algo.  Imagino o tamanho de sua dor e vergonha diante da cena em público.  Cheguei a pensar em descer eu mesmo.
De repente eu ouvi uma voz chamando-a.  "Galega", disse um morador de rua, guardador de carros aqui nas proximidades.  Sujíssimo.  Roupas imundas, corpo que não deve ver água há meses, cabelos desgrenhados, pés descalços.  
Foi a única pessoa que conversou com a mulher.  
Solidariedade não é para qualquer um.

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