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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

New York Post publica foto de homem prestes a morrer: Quando o jornalismo é covarde

Esta capa me lembrou, de imediato, a primeira página do Diário de Natal em que foram publicadas as fotos do corpo, esquartejado, do mítico bandido natalense Paulo Queijada sendo retirado da parede em que havia sido cimentado na Colônia Penal João Chaves.  Aquela edição do Diário, na segunda metade dos anos 90, esgotou-se nas bancas mas, posteriormente, lançou o veículo em uma profunda crise de imagem.  Representou o fim do caderno de polícia do jornal.
Podemos esperar algo semelhante, talvez não tão intenso, ao New York Post.

Por Kiko Nogueira

A capa do New York Post com um homem prestes a ser morto pelo metrô

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. Janet Malcolm



Uma das imagens mais revoltantes da história do jornalismo foi publicada hoje na capa do tabloide New York Post. Um homem tenta voltar à plataforma da estação na rua 49, enquanto o trem do metrô vem em sua direção. Seu nome era Ki Suk Han, imigrante coreano de 58 anos, casado, uma filha. Han morreria em decorrência dos ferimentos.

A reação foi instantânea. Por que o fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi preferiu clicar ao invés de tentar salvar seu personagem? Por que o Post publicou? Por que ninguém presente à cena fez nada?

Abbasi declarou que tentou. “Eu comecei a correr, correr, na esperança de que o condutor pudesse ver meu flash”, contou. “Estou sendo injustamente massacrado pela imprensa. Estava carregando um equipamento pesado. Quando o homem caiu, ninguém ajudou. As pessoas começaram a correr”.

Abbasi afirma que disparou o flash 49 vezes. Se tivesse chegado a tempo, teria tentado puxar a vítima. Ele crê que Han ficou de 10 a 15 segundos nos trilhos antes de ser colhido.

Essa não é a melhor maneira de chamar a atenção do condutor de um trem ou de ajudar alguém a subir de volta a uma plataforma. E nada disso impediu Abbasi de, na sequência, ir à redação do Post vender as imagens.

Naeem Davis, um homeless de 30 anos, confessou ter empurrado o imigrante. Ele disse à polícia que os dois começaram a discutir depois de se trombar e que sua reação foi jogar Han nos trilhos. Depois, ficou ali parado, olhando o atropelamento.

David Carr, colunista do NYTimes, resumiu assim: “A capa do Post simboliza tudo o que as pessoas odeiam e suspeitam sobre o negócio de mídia: não apenas que os jornalistas são espectadores, eunucos morais e éticos que não intercedem diante do perigo ou da maldade, mas que torcem secretamente para que o pior aconteça”.

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