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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

#RevoltadoBusao e a violência

Há um clipe clássico de O Rappa.  Muito premiado e elogiado, o clipe de "Minha alma" demonstra a que ponto de violência a revolta popular pode chegar se a corda for bastante esticada por parte do poder instituído.
Ninguém questiona isso quando se trata de uma música.
Mas a [des]qualificação dos protestos de rua beira a um inocência útil incompreensível. Ano passado, quando os ventos da Primavera Árabe chegaram a Londres, grande da imprensa mundial classificou aqui tudo como puro vandalismo.  Afinal, em Londres, os protestos alcançaram elevado grau de violência, com a destruição de automóveis, prédios, enfim.  A palavra que os classificou foi vândalos.
Ninguém se importava de procurar compreender como a corda foi esticada ao ponto de ruptura contra eles: as violências que sofriam não puderam mais ser esquecidas e, como no clipe de O Rappa, explodiram em chamas.  Londres em chamas.
Hoje eu presenciei - e transmiti - mais um protesto da #RevoltadoBusao, contra os abusos do sistema de transporte em Natal.  Se nos atos mais pacíficos todos foram chamados de vândalos, imagine o que você vai ouvir, ver e ler na imprensa de Natal sobre o de hoje.
A corda foi esticada pelo Seturn, que disparou o rastilho de pólvora.  Hoje não havia mais como controlar os manifestantes.  Muitos ônibus tiveram suas lanternas destruídas.  Todos foram pichados.  A intenção era um roletaço - os ônibus eram abertos e os manifestantes subiam de graça.
Mas devo fazer uma ressalva.  É sobre o que li por aí a respeito do carro da PRF. Por volta dos seis minutos de filmagem você vai poder ver o que vou relatar.
Um grupo de poucos manifestantes foram conversar com o PM que estava na área sobre o fato de os ônibus estarem sendo desviados.  Uma professora da UFRN e um adolescente - cujos nomes ainda não sei - foram presos pelo PM, que pediu à PRF que os levasse.  Somente nessa hora o carro foi "atacado" por alguns estudantes.  Está tudo na twitcam (veja aqui: http://twitcam.livestream.com/c3gtx).
A PRF nos confirmou que quatro pessoas foram presas por pertubação da ordem pública.  Quando tentaram deter uma menina por supostamente estar consumindo maconha - o que ela nega - conversei com um dos policiais sobre a viabilidade daquela prisão.  Afinal, a menina ia ser levada à delegacia, faria um termo circunstanciado de ocorrência e seria em seguida liberada - consumo de drogas é contravenção e não crime no Brasil.  Uma prisão daquela no meio de um protesto serviria somente para acirrar os ânimos.  O policial reforçou apenas o discurso de que o usuário alimenta o crime organizado - e fim de papo.
Houve, certamente, atos de violência contra o patrimônio das empresas de ônibus hoje.  Mas a #RevoltadoBusao, como qualquer revolta popular, é capaz de chegar a um ponto de ebulição se a corda é esticada.  A ação policial nos protestos de duas semanas atrás mostra que a PM temia por isso.  Porque isso fortalece a luta do povo e força o poder público a, finalmente, olhar por ele - o povo.
Se a corda é esticada contra o mais fraco certamente sua força se engradece - ainda que seja de uma maneira que a tal da ordem pública vai considerar violenta. Ou vandalismo.
Veja o clipe de O Rappa:


P.S.: A professora presa foi Sandra Erickson, do Departamento de Línguas e Literatura Estrangeiras Modernas - e do PPgEL, onde fiz mestrado e doutorado.

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