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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Rafael Duarte: Enquanto Luiz não vem

Rafael Duarte

Nas minhas fantasias de repórter, ainda na faculdade, tinha um ideal de reportagem. Sonhava, numa vã inocência idealista, encontrar um dos desaparecidos políticos que a ditadura defenestrou. Eu tinha certeza, dessas certezas que faz a gente sonhar por várias noites, que um dia um dos comunistas da esquerda que sumiram lutando contra o regime militar apareceria para mim, provavelmente no Beco da Lama, e contaria, tintim por tintim, os detalhes que ninguém sabia ainda da história que eu conheci através dos jornais, dos livros e dos filmes.

Com a diferença básica de que meu narrador personagem ideal tinha, de fato, vivido, sentido e sumido sem deixar vestígios. Desaparecido sem que a família tivesse ao menos o direito de enterrar o corpo reconhecidamente morto pelo Estado, mesmo que vários anos depois do sequestro.

Admito que jornalista em início de carreira é uma merda. Num surto de arrogância, a gente incorpora o personagem do 'repórter pai de santo', aquele sujeito que se acha predestinado e tem certeza de que foi 'o escolhido' para receber a informação divina. Demora um pouco, mas repórter cresce, amadurece e entende – ou pelo menos deveria – que até a loucura e a arrogância fazem parte da rotina insana de contar todo dia uma história diferente, uma arte demasiadamente humana.

Sempre acompanhei à distância o sofrimento dos familiares do comunista potiguar Luiz Ignácio Maranhão Filho. Símbolo da luta contra o regime militar no Rio Grande do Norte, o jornalista, advogado e professor universitário era, sobretudo, um exemplo. Tipo do sujeito de quem só contam boas histórias, independente da roda de conversa em que você se meta. Um ateu que virou amigo do bispo, um preso político que nas cartas escritas da cadeia aos familiares preferia perguntar como estavam as aulas de música dos sobrinhos a falar da agonia de viver sem saber se amanheceria no dia seguinte.

Durante esta semana, a nova versão sobre o destino do corpo de Luiz Maranhão me jogou novamente ao passado. Segundo o ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, o cadáver do potiguar foi incinerado junto com outros nove militantes de esquerda torturados pelos militares. O depoimento foi publicado no livro 'Memórias de uma Guerra Suja', que promete servir de bússola para a Comissão da Verdade, grupo que vai investigar os crimes contra os direitos humanos cometidos entre 1948 e 1988.

Eu demoro a acreditar nas coisas. Correndo atrás das informações sobre Luiz Maranhão, descobri que o jornalismo é ainda mais humano do que eu imaginei que fosse. A partir de agora, quando me pedirem para definir o que faz um repórter, vou dizer que faz o que sempre fez Natércia Maranhão, irmã mais velha do comunista. Depois do sequestro, ela passou a sentar todos os dias de frente para a porta de casa na vã esperança de receber, com os braços abertos, a notícia que até hoje não veio. Demasiadamente repórter enquanto Luiz não vem.

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