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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Ricardo Gondim: Para começo de conversa

Por Ricardo Gondim

Os humanos desejam. A vida rodopia no verbo querer. Porque desejam, pessoas fazem escolhas. Volição ou livre arbítrio, um dos nós que a filosofia nunca conseguiu desatar completamente, é a maior riqueza da humanidade. A psicanálise diz que desejo é pulsão – energia de onde vem o apetite. Tesão. Embora pareça chulo, tesão comunica bem essa força chamada desejo.

Pulsões tanto geram vida com arrastam para a morte. As pessoas dizem sim porque se sentem fascinadas. Anseiam pelo que traz vida. Apetite de morte produz medo. Rejeições, portanto, nunca começam com moralismo. Sempre que alguém recusa algo, quer fugir da morte; tenta evitar Tânatos – sua personificação. Desejo e aversão nascem dessas pulsões que em si não são certas ou erradas. Nas pulsões, inexiste o “pode, não pode”. A energia vital do desejo engatilha outro processo: “quero, não quero”. Daí, desejo, vontade e liberdade andarem juntos.

No império das decisões, todos são deuses. Quando a escolha é feita, nada e ninguém consegue reverter. O rei tapa os ouvidos depois que declara guerra. O general pode aconselhar, mas suas recomendações cairão como semente em terreno duro. Se o rapaz resolve cortejar a donzela, de nada valerá pais, sacerdotes, profetas ou psiquiatras advertirem. Romeu e Julieta correrão todos os riscos.

Amor reduz, inclusive, alternativas. Quanto maior a cordialidade, maior a disposição de prestar atenção. Amor evita distrair-se.

Amantes se desarmam. Aquele que quer bem se abre para o que aprecia. Ternura destranca preconceito. O pai não se irrita de repetir e o filho não se zanga de ouvir as mesmas histórias.

Quem ama olha fixo – evita o soslaio, como Machado de Assis sugeriu a respeito de Capitu. Vista segura escancara a comunicação entre diferentes. Desejo gera apetite de ouvir o que antes soava estranho. Pela felicidade da amada, o namorado aprende um novo idioma. O amor que deslumbra possibilita a novidade.

Ninguém converte ninguém. Quando coração rejeita, toda racionalidade rui, impotente. Argumentos antipatizados se desmancham antes da mente percebê-los; vão para o lixo, rechaçados, não pelo intelecto, mas pelo coração. Com animosidade, a comunicação cessa. Para um coração endurecido, de nada serve acenar com fogo do inferno ou com o cenho franzido de Deus. Ameaça constrange, subjuga, mas só consegue inviabilizar o diálogo.

Pedagogia começa com amizade. Sensibilidade para aprender deve vir precedida de boa vontade. Sabedoria carece de ambiente sereno. O bom professor precisa ser querido. Graça vem antes da verdade. Na aprendizagem, tato antecede argumento, credibilidade antecipa explanação e só ternura dissipa dúvida. Aprender necessita do verbo desejar.

Para começo de conversa, a receita é amar.

Soli Deo Gloria

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