Na lista de 294 nomes, apenas um do Rio Grande do Norte:
Ricardo Tavares de Andrade, CPF 350.796.494-53
Distrito Irrigado do Rio Açu – Setor 5,
Lotes 44, 45 e 49 – Zona Rural –
Alto do Rodrigues/RN
No Blog do Sakamoto
Atualizada nesta sexta (30), o cadastro de empregadores flagrados
com mão-de-obra análoga à de escravo cresceu com a entrada de 52 novos
registros, chegando ao número recorde de 294 nomes. Entre os que
entraram na “lista suja” estão grupos sucroalcooleiros, madeireiras,
empresários e até uma empreiteira envolvida na construção da usina
hidrelétrica de Jirau. A relação inclui também médicos, políticos,
famílias poderosas e casos de exploração de trabalho infantil e de
trabalho escravo urbano. Para ver a lista atualizada,
clique aqui.
A “lista suja” tem sido um dos principais instrumentos no combate a
esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão
econômica. Após a inclusão do nome do infrator, instituições federais,
como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco da Amazônia,
o Banco do Nordeste e o BNDES suspendem a contratação de financiamentos
e o acesso ao crédito. Bancos privados também estão proibidos de
conceder crédito rural aos relacionados na lista por determinação do
Conselho Monetário Nacional. Quem é nela inserido também é submetido a
restrições comerciais e outros tipo de bloqueio de negócios por parte
das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho
Escravo – que representam mais de 25% do PIB brasileiro.
O nome de uma pessoa física ou jurídica é incluído na relação depois
de concluído o processo administrativo referente à fiscalização dos
auditores do governo federal e lá permanece por, pelo menos, dois anos.
Durante esse período, o empregador deve garantir que regularizou os
problemas e quitou suas pendências com o governo e os trabalhadores.
Caso contrário, permanece na lista.
Abaixo, trechos da apuração de Bianca Pyl, Daniel Santini e Maurício Hashizume, da
Repórter Brasil, que monitora o cadastro desde sua criação em novembro de 2003:
Entre os novos registros, há casos como o de Lidenor de Freitas
Façanha Júnior, cujos trabalhadores, segundo os auditores fiscais do
trabalho envolvidos nas operações de libertação, bebiam água infestada
com rãs, e o do fazendeiro Wilson Zemann, que explorava crianças e
adolescentes no cultivo de fumo. Entre os estados com mais inclusões
nesta atualização estão Pará (9 novos nomes), Mato Grosso e Minais
Gerais (8 cada). A incidência do problema no chamado Arco do
Desmatamento demonstra que a utilização de trabalho escravo na
derrubada da mata para a expansão de empreendimentos agropecuários
segue presente.
Nesta atualização, apenas dois nomes foram retirados do cadastro
(Dirceu Bottega e Francisco Antélius Sérvulo Vaz), o que pesou para que
a relação chegasse a quase 300 registros.
Escravos da cana – Entre os destaques da
atualização estão libertações que chamam a atenção pelo grande número
de escravos resgatados em plantações de cana-de-açúcar. Só na Usina
Santa Clotilde S/A, uma das principais de Alagoas, foram flagrados 401
trabalhadores em situação degradante em 2008. Também entra nesta
atualização a Usina Paineiras, que utilizou 81 escravos em Itabapoana
(RJ) em 2009. Um ano após o flagrante que resultou nesta inclusão, a
empresa comprou a produção da Erbas Agropecuária, onde foram flagrados
95 trabalhadores escravizados.
Mesmo com o aumento da preocupação social por parte das usinas, real ou
apenas declarado, o setor ainda tem ocorrências de mão-de-obra escrava.
A Miguel Forte Indústria S/A foi flagrada explorando 35
trabalhadores, incluindo três adolescentes, na colheita de erva-mate em
Bituruna (PR). A madeireira, que mantinha o grupo em barracões de lona
sob comando de “capatazes”, anuncia na sua página que “o apoio a
projetos sociais que promovem a cidadania e o bem-estar, principalmente
entre a população carente, mostra o comprometimento da Miguel Forte com
os ideais de uma sociedade mais justa e humana”. À frente da empresa,
Rui Gerson Brandt, acumula o cargo de presidente do Sindicato das
Indústrias de Papel e Celulose do Paraná (Sindpacel).
Hidrelétrica de Jirau
- Não é só na monocultura ou
no campo que os flagrantes acontecem. As condições degradantes em
projetos bilionários do país têm sido uma constante e, nesta
atualização, uma das empreiteiras envolvidas na construção de uma
hidrelétrica também entrou na lista. A Construtora BS, contratada pelo
consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus), foi flagrada
utilizando 38 escravos na construção da Usina Hidrelétrica de Jirau.
Além de enfrentarem problemas relacionados aos alojamentos, segurança
no trabalho e saúde, os empregados ainda eram submetidos a escravidão
por dívida, por vezes em esquemas sofisticados que envolvem até a
cobrança por meio de boletos bancários, conforme denunciado, na época,
pela
Repórter Brasil.
Mesmo após o flagrante, as condições de trabalho não melhoraram,
segundo denúncias recentes. Em abril deste ano, um grupo de 20
trabalhadores procurou o Sindicato dos Trabalhadores da Construção
Civil de Rondônia (Sticcero) alegando que a BS não havia pago o aviso
prévio e eles estavam dormindo no galpão da Construtora, sem ter como
voltar para casa. Uma liminar chegou a bloquear os bens da empresa em
2011.
O isolamento, aliás, continua sendo utilizado como ferramenta para
escravizar pessoas. Nesta atualização da lista, foi incluído Ernoel
Rodrigues Junior, cujos trabalhadores estavam em um local de tão
difícil acesso que foi necessário um helicóptero para o resgate dos
trabalhadores.
Entre os libertados estavam dois adolescentes de 15 e
17 anos e uma de 16 anos. Para chegar no local em que o grupo estava,
foi necessário percorrer a partir de São Félix do Xingu (PA) por 14
horas um caminho que contava com uma ponte de madeira submersa, balsa e
estradas de terra em condições tão ruins que foi necessário o uso de
tratores para desatolar alguns dos veículos. De acordo com os relatos
colhidos pela fiscalização, todos tinham medo de reclamar porque o
fazendeiro e o segurança da propriedade andavam armados. Para que
conseguisse fazer a denúncia, um trabalhador explorado conseguiu fugir
e teve de caminhar durante seis dias pela mata e por estradas de terra.
Outro destaque na atualização da “lista suja” neste ano é a inclusão
de Fernando Jorge Peralta pela exploração de escravos na Fazenda
Peralta, em Rondolândia (MT). O Grupo Peralta é um conglomerado
empresarial poderoso, do qual fazem parte a rede de supermercados
Paulistão, a Brasterra Empreendimentos Imobiliários, as concessionárias
Estoril Renault/Nissan (em Santos, Guarujá e Praia Grande), os
shoppings Litoral Plaza Shopping e Mauá Plaza Shopping (cuja
construção, na época, envolveu uma denúncia de propina), a
Transportadora Peralta (Transper) e a PRO-PER Publicidade e Propaganda,
só para citar os principais ramos de atividade do grupo. O flagrante
que levou Fernando Jorge à “lista suja” aconteceu em 2010 e envolveu a
libertação de 11 trabalhadores de sua fazenda.
Luiz Carlos Brioschi e Osmar Brioschi, que também entram na lista
nesta atualização, foram flagrados se aproveitando de 39 trabalhadores
na colheita do café em Marechal Floriano (ES). Eles mantinham os
empregados em regime de escravidão por dívidas e em condições
extremamente precárias de trabalho e vida. Dois dias após a libertação
ter sido divulgada, Osmar Brioschi esteve entre os homenageados com
placas e diplomas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo pelo
“trabalho realizado em favor do campo capixaba”, por iniciativa do
deputado Atayde Armani (DEM-ES).
Devastação ambiental - Outro aspecto reforçado pela
atualização da lista é o elo entre escravidão e devastação ambiental. O
uso de escravos em grandes projetos de desmatamento e em áreas com
conflitos agrícolas é bastante comum. Desta vez, foi incluído na
relação Tarcio Juliano de Souza, apontado como responsável pela
destruição de milhares de hectares de floresta amazônica nos últimos
anos. Ele é considerado pela Polícia Federal responsável por montar um
esquema para desmatar cerca de 5 mil hectares de floresta nativa na
região de Lábrea (AM), onde mantém a Fazenda Alto da Serra. Chegou a
ser preso em Rio Branco (AC) pelos crimes de redução de pessoas a
condições análogas à escravidão, aliciamento de trabalhadores e
destruição de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e foi denunciado
por tentar comprar um fiscal. Na época, o superintendente regional do
trabalho Dermilson Chagas declarou que Tárcio estava à frente de um
“consórcio de fazendeiros” do Acre formado para transformar grandes
áreas de Lábrea (AM) em pastos, com a utilização criminosa de escravos
para o desmate, para criar gado bovino.
Políticos e doutores – Um ex-prefeito, um
ex-secretário municipal do Meio Ambiente e dois médicos estão entre os
que entraram na relação nesta atualização. O ex-prefeito Edmar Koller
Heller foi flagrado em 2010 explorando mão-de-obra escrava em um
garimpo na Fazenda Beira Rio, que fica em Novo Mundo (MT), a 800 km da
capital mato-grossense Cuiabá (MT), próximo à divisa com o Pará. Edmar
foi prefeito de Peixoto de Azevedo (MT) em 2000, pelo extinto PFL (hoje
DEM). Teve seu mandato cassado após ser acusado de desvio de recursos
públicos, contratação de pessoal especializado sem licitação e
contratação ilegal de veículos automotores de auxiliares de confiança.
Em 2007, ele se envolveu em outro escândalo político e chegou a ser
preso. Como secretário de Administração da prefeita Cleuseli Missassi
Heller, sua esposa, ele foi considerado responsável por improbidade
administrativa, configurada pelo favorecimento de uma única empresa em
processos licitatórios do município. Em 2009, a Terceira Câmara Cível
do Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a condenação.
Outro político que passa a fazer parte da lista é Evanildo
Nascimento Souza, flagrado com escravos quando ainda era secretário de
Meio Ambiente de Goianésia do Pará (PA). O homem que deveria zelar pela
natureza foi flagrado explorando trabalhadores justamente no corte e
queima de madeira para produção de carvão. De acordo com o Ministério
Público do Trabalho (MPT), foram encontrados na Fazenda RDM (onde se
localiza a Carvoaria da Mata), em julho de 2009, nove trabalhadores
laborando em condições degradantes no corte de madeira, transporte,
empilhamento, enchimento dos fornos, vedação do forno com barro e
carbonização. Os trabalhadores não possuíam equipamentos de proteção
individual (EPIs) e estavam alojados em um barraco em péssimas
condições, sujo com detritos, restos de maquinário e peças de veículos,
armazenamento de combustível, sem separação para homens e mulheres, nem
ventilação e iluminação.
Os médicos incluídos na relação são José Palmiro Da Silva Filho, CRM
830, flagrado com cinco escravos na Fazenda São Clemente, em Cáceres
(MT), e Ovídio Octávio Pamplona Lobato, CRM 3236, flagrado com 30
escravos na Fazenda Tartarugas, em Soure (PA).
Para ver a lista atualizada,
clique aqui.
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