Por
Immanuel Wallerstein | Tradução:
Daniela Frabasile
No Blog Outras Palavras
Por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial –
seja qual for a abrangência da definição de cada um sobre a esquerda
mundial. A razão fundamental foi a condição econômica negativa, que
atinge a maior parte do mundo. O desemprego, que era alto, cresceu
ainda mais. A maioria dos governos enfrentou grandes dívidas e receita
reduzida. A resposta deles foi tentar impor medidas de austeridade
contra suas populações, ao mesmo tempo em que tentavam proteger os
bancos.
O resultado disso foi uma revolta global daquilo que o movimento
Occuppy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos eram a excessiva
polarização da riqueza, os governos corruptos, e a natureza
essencialmente antidemocrática desses governos — tenham eles sistemas
multipartidários ou não.
O Occuppy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não
alcançaram tudo o que esperavam. Mas sim conseguiram alterar o discurso
mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo
— para temas como desigualdade, injustiça e descolonização. Pela
primeira vez em muito tempo, pessoas comuns passaram a discutir a
natureza do sistema no qual vivem. Já não o vêem como natural ou
inevitável…
A questão para a esquerda mundial, agora, é como avançar e converter
o sucesso do discurso inicial em transformação política. O problema
pode ser exposto de maneira muito simples. Ainda que exista, em termos
econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o
1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política não segue o mesmo
padrão. Em todo o mundo, as forças do centro-direita ainda comandam
aproximadamente metade da população mundial, ou pelo menos daqueles que
são politicamente ativos de alguma forma.
Portanto, para transformar o mundo, a esquerda mundial precisará de
um grau de unidade política que ainda não tem. Há profundos desacordos
tanto sobre a objetivos de longo prazo quanto sobre táticas a curto
prazo. Não é que esses problemas não estejam sendo debatidos. Ao
contrário, são discutidos acaloradamente, e pouco progresso tem sido
feito para superar essas divisões.
Essas discordâncias são antigas. Isso não as torna fáceis de
resolver. Existem duas grandes divisões. A primeira é em relação a
eleições. Não existem duas, mas três posições a respeito. Existe um
grupo que suspeita profundamente de eleições, argumentando que
participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a
legitimidade do sistema mundial existente.
Os outros acham que é crucial participar de processos eleitorais.
Mas esse grupo está dividido em dois. Por um lado, existem aqueles que
afirmam ser pragmáticos. Eles querem trabalhar de dentro – dentro dos
maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema
multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a
alternância parlamentar não é permitida.
E existem, é claro, os que condenam essa política de escolher o mal
menor. Eles insistem que não existe diferença significativa entre os
principais partidos e são a favor de votar em algum que esteja
“genuinamente” na esquerda.
Todos estamos familiarizados com esse debate e já ouvimos os
argumentos várias vezes. No entanto, está claro, pelo menos para mim,
que se não houver algum acordo entre esses três grupos em relação às
táticas eleitorais, a esquerda mundial não tem muita chance de
prevalecer a curto ou a longo prazo.
Acredito que exista uma forma de reconciliação. Ela consiste em
fazer uma distinção entre as táticas de curto prazo e as estratégias a
longo prazo. Concordo totalmente com aqueles que argumentam que obter
poder estatal é irrelevante para as transformações de longo prazo do
sistema mundial – e possivelmente as prejudica. Como uma estratégia de
transformação, foi tentada diversas vezes e falhou.
Isso não significa que participar nas eleições seja uma perda de
tempo. É preciso considerar que uma grande parte dos 99% está sofrendo
no curto prazo. Esse sofrimento é sua preocupação principal. Tentam
sobreviver, e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos
nos governos não como agente potencial de transformação social, mas
como estruturas que podem afetar o sofrimento a curto prazo, por meio
de decisões políticas imediatas, então a esquerda mundial se verá
obrigada a fazer o que puder para conquistar medidas capazes de
minimizar a dor.
Agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. E o debate
entre os que propõem o menor mal e os que propõem apoiar partidos
genuinamente de esquerda? Isso torna-se uma decisão de tática local,
que varia enormemente de acordo com vários fatores: o tamanho do país,
estrutura política formal, demografia, posição geopolítica, história
política. Não há uma resposta padrão. E a resposta para 2012 também não
irá necessariamente servir para 2014 ou 2016. Não é, pelo menos para
mim, um debate de princípios. Diz respeito, muito mais, à situação
tática de cada país.
O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o
desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da
civilização. Podemos observar esse debate em muitas partes do mundo.
Ele está presente na América Latina, nos debates fervorosos entre os
governos de esquerda e os movimentos indígenas – por exemplo na
Bolívia, no Equador, na Venezuela. Também pode ser acompanhado na
América do Norte e na Europa, nos debates entre ambientalistas/verdes e
os sindicatos, que priorizam manutenção dos empregos já existentes e a
expansão da oferta de emprego.
Por um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de
esquerda ou por sindicatos, sustenta que sem crescimento econômico, não
é possível enfrentar as desigualdades econômicos do mundo de hoje –
tanto as que existem dentro de cada país quanto as internacionais. Esse
grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez
subjetivamente, os interesses das forças de direita.
Os que apoiam a opção anti-desenvolvimentista dizem que o foco em
crescimento econômico está errado em dois aspectos. É uma política que
leva adiante as piores características do sistema capitalista. E é uma
política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.
Essa divisão parece ainda mais apaixonada, se é que é possível, que
a divergência sobre a participação eleitoral. A única forma de resolver
isso é com compromissos, diferentes em cada caso. Para fazer com que
isso seja possível, cada grupo precisam acreditar na boa fé e nas
credenciais de esquerda do outro. Isso não será fácil.
Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez
anos? Não tenho certeza. Mas se não forem, não acredito que a esquerda
mundial possa ganhar, nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha
fundamental. Nela se definirá que tipo de sistema sucederá o
capitalismo, quando este sistema entrar definitivamente em colapso.
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