Por Daniel Menezes
Na Carta Potiguar
O sindicato da indústria da construção civil do estado do Rio Grande
Do Norte (SINDUSCON/RN) sinalizou com a perspectiva de participar do
pleito eleitoral do ano que vem, subsidiando, segundo ele, os
natalenses com pesquisas eleitorais e de opinião sobre a corrida
municipal e temas polêmicos que gravitam na esfera pública. Conforme
seu presidente, Arnaldo Gaspar Jr, será uma forma de contribuir para o
debate.
Democracia
A
aspiração da entidade é legítima. Numa democracia toda e qualquer
pessoa/instituição pode – acredito que deve – se manifestar no sentido
de apresentar seus pontos de vista sobre aquilo que entende ser
relevante. No entanto, como também num regime democrático, não somos
obrigados a concordar com os argumentos do proponente.
Neste sentido, é possível identificar um conjunto de incongruências ideológicas na fala do presidente da instituição.
Passado esquecido?
Primeiro, não é verdade que só agora o Sinduscon irá figurar como
agente político em uma sucessão eleitoral. O Sinduscon vem firmando
posições, através do apoio de candidaturas que defendem os seus
interesses. O referido sindicato foi, apenas para apontar uma
intervenção recente, um dos principais responsáveis pela vitória de
Micarla de Sousa, na medida em que ajudou fortemente em seu
financiamento de campanha.
Vender o individual como interesse de todos
Segundo, a preocupação não é em contribuir para o bem da cidade e
gerar informação para os natalenses. Mas de promover uma articulação
ainda maior do grupo de construtores, difundindo visões de mundo que
vão ao encontro dos seus interesses enquanto agrupamento.
Daí que é perigosa, além das sondagens eleitorais, a idéia de levar
as pesquisas de opinião do Sinduscon a sério. Fazendo um contorcionismo
intelectual que beira o absurdo, por exemplo, Arnaldo Gaspar Jr
afirmou, em entrevista a uma rádio da cidade, que a pessoa que deseja
que o Juvenal Lamartine não seja vendido, ou que vire um parque
público, está pensando apenas no seu interesse privado. Segundo ele, o
ponto de vista que irá atender as expectativas do natalense passa pela
venda do terreno e sua posterior transformação em espigões. Uma clara
apresentação do desejo individual travestido pela busca do “bem de
todos”.
Pesquisas manipuladas
Pesquisas de opinião, se comparada às eleitorais, apresentam maior
margem de manipulação. Dependendo do modo como a pergunta é feita
(imposição de problemática ou de possibilidades de resposta) e os dados
são apresentados (supressão da maioria de indecisos para inflar outras
escolhas, etc), a pesquisa de opinião pode, com certa facilidade,
trazer o resultado que o agente deseja.
Significativo, portanto, é o fato de que os temas considerados
importantes hoje, de acordo com o presidente, digam respeito aos
assuntos de interesse do Sinduscon, tais como a venda do Juvenal
Lamartine e a verticalização da Zona Norte.
Direito de pergunta
E aí cabe perguntar: qual será o respaldo que o Sinduscon, grande
interessado no apetitoso terreno do Juvenal Lamartine e na
transformação de uma Zona Norte sem estrutura em prédios, terá para
publicar pesquisas de opinião pública em favor dos seus interesses?!
A perspectiva é bem clara: utilizar as pesquisas de opinião para
atribuir um verniz de verdade as aspirações sociais e econômicas do
sindicato. Mostrar, através do enviesamento, que a população quer o
que o Sinduscon deseja.
Interferência perniciosa
A atuação do Sinduscon/RN nos últimos anos tem trazido malefícios
para a cidade. Na medida em que tenta universalizar desejos setoriais,
este sindicato tenta difundir a ideia de que Natal só se desenvolverá
se se transformar numa plantação de milho com muitos espigões.
Portanto, o ataque a qualquer candidatura/projeto político que não
comungue dos seus pontos de vista vem representando uma clara
desqualificação (lembrar da celeuma do plano diretor) de qualquer
perspectiva que vise criar uma cidade sustentável.
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