Por Rodrigo Vianna
No Escrevinhador
A “Folha” levou uma semana para falar no livro de Amaury. Talvez
esperasse as orientações do “comitê central”. As orientações parecem
ter chegado sem muita clareza. O jornal da família Frias, num texto
opaco que nenhum jornalista teve coragem de assinar, levanta suspeita
não contra Serra e sua turma de especialistas em “offshore” – mas
contra o premiado repórter Amaury Ribeiro Jr.
A “Folha” não se preocupou com a “ficha” do Bob Jefferson antes de
noticiar o chamado “Mensalão”. O que importava ali era a denúncia. Bob
falou e a mídia correu para “provar” o roteiro que ele indicou (sem
nenhuma prova, diga-se). Havia verdades na fala de Bob, mas tambem
alguns exageros. O “Mensalão” propriamente dito (que a Globo tentou
transforma no “maior escândalo da história”) não existia no sentido de
um pagamento mensal a deputados governistas. Mas havia, sim, um esquema
subterrâneo, que o PT parece ter herdado dos tucanos de Minas.
Da mesma forma, a “Folha” não se preocupou em saber se o homem que
denunciava o Ministro Orlando Silva era ou não um bandido. Valiam as
acusações, sem provas. O roteiro estava pronto. O ministro que provasse
a inocência.
Com Amaury e a Privataria Tucana, há provas aos montes. Há
documentos no livro. Mais de cem páginas. E há o currículo de um
repórter premiado. Mas a “Folha” faz o papel de advogada do diabo. Quem
seria o “coiso ruim” que a “Folha” quer defender?
Outro dado curioso. Lula foi ao poder e jamais investigou as
privatizações. Havia um acordo tácito (e tático) para não promover caça
às bruxas. Na Argentina, no México, na Bolívia, a turma dos privatas
foi demolida. Aqui no Brasil, eles dão consultoria e palestras. Coisas
do Brasil. Feito a jabuticaba.
Dez anos depois, a história das privatizações ressurge, pelo esforço
e a coragem de um jornalista que alguns consideram “doido”, por mexer
com “gente tão poderosa”. Amaury tem aquele jeito afobado, e o olhar
injetado que só os sujeitos determinados costumam mostrar. Agora,
querem desqualificá-lo. Covardia inútil.
Até porque um outro sujeito chamado de “doido”, o delegado
e deputado federal Protógenes, botou o livro debaixo do braço e saiu
coletando assinaturas para a CPI da Privataria. Nessa quinta-feira, dia
15 de dezembro,
Protógenes anuncia ter atingido mais de 171 assinaturas.
A CPI da Privataria vem aí. Contra a vontade de Otavinho, Ali Kamel,
Civita e dos colunistas histéricos que servem a essa gente. Meia dúzia
de blogueiros sujos (obrigado, Serra) avisou o público: há um livro
sobre as privatizações na praça. A brava “CartaCapital” – de Mino
Carta, Sergio Lirio e Leandro Fortes – publicou 12 páginas sobre o
livro. E os leitores nas redes sociais espalharam a notícia.
Verdade que setores da grande imprensa furaram o bloqueio – a
notícia saiu na Record, Record News, Gazeta, Portal Terra… Mas e na
Globo e na CBN que convocam “marchas contra a corrupção”? Silêncio dos
cemitérios sicilianos.
Não importa. O barulho foi feito pelos blogs, pelas redes sociais e
pelos poucos jornalistas que não se renderam ao esquemão do PIG. É uma
turma que colegas mais bem estabelecidos costumam chamar de “gente
doida da internet”.
Pois bem. A conexão dos “doidos” e “sujos” ganhou o primeiro round
nesse episódio da Privataria. Como já havia ganho no caso da bolinha de
papel em 2010.
Vejam bem. Não foi o PT, nem a máquina
petista (parte dela, aliás, sai mal do livro - por conta do acordo na
CPI do Banestado, e da guerra interna no comitê petista em 2010 narrada
por Amaury) que fez barulho. Não. Foi a turma aqui da internet.
O Serra levou outra bolinha na testa. Essa deve ter doído de
verdade. Serra chamou o livro de “lixo”. De fato, as operações narradas
por Amaury cheiram mal. A Privataria cheira mal. E o livro é pesado,
recheado de documentos.
Será que Kamel convocará o perito Molina para provar que o livro não
existe? O problema será convencer os leitores dos blogs e os quase 200
deputados que já assinaram o pedido da CPI. A primeira – em muitos anos
- que pode vir sem ter sido precedida de campanha movida pela velha
mídia.
Essa CPI, se vingar (e ainda há armadilhas no caminho), virá contra
a velha mídia. Será a vitória dos sujos e doidos contra o bloco dos
hipócritas.
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