No Terra Magazine
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| Palmério Dória, um dos autores do livro |
A eleição presidencial de 2010, vencida pela petista Dilma Rousseff,
começa a ganhar os primeiros relatos históricos. Um dos lançamentos
editoriais sobre a campanha política, o livro "Crime de imprensa"
(Plena Editorial), de Palmério Dória e Mylton Severiano, analisa o
comportamento dos grandes grupos midiáticos durante a sucessão do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Repórteres veteranos, Palmério e Severiano (o Myltainho) atuaram na
imprensa alternativa e também em grupos como "Estado de S. Paulo",
"Folha de S.Paulo", "Realidade", "Rede Globo" e "TV Record". No livro,
provocantemente "prefaciado" pelo escritor Lima Barreto, os autores
sustentam que a mídia nacional assumiu as bandeiras de partido político
e apoiou a candidatura de José Serra (PSDB).
- A Dilma enfrentou, durante a campanha, uma espécie de túnel de trem
fantasma. A cada curva, havia uma cilada, um sobressalto, uma chamada
"bala de prata". Hoje a imprensa continua assim, apesar de ela ser uma
das três mulheres mais poderosas do planeta - afirma Palmério Dória,
autor do best-seller "Honoráveis Bandidos - Um retrato do Brasil na Era
Sarney" (Geração Editorial), em entrevista a
Terra Magazine.
Craque da reportagem e frasista veloz, sempre a denunciar uma rica
formação literária, Palmério Dória recorre ao humor - essa escopeta às
vezes subestimada - para confrontar os velhos fantasmas da Nova
República. O livro sobre o senador José Sarney, que frequentou por
meses as listas dos mais vendidos, iniciou uma trilogia da vida
política brasileira. A internet, pondera o jornalista, ajudou a
balançar o previsível coreto.
- A Globo chegava a dominar 100% da audiência, nos anos 70 e 80. Ainda
outro dia, a Globo dominava. Isso mudou. (...) Agora tem a força da
blogosfera, que, de repente, se articula numa espécie de cadeia da
legalidade, para citar o episódio do Brizola (em 1961)... Mas também
tem os dois lados. Pode ser a internet do bem e do mal. A internet do
mal procovocou aquela peste emocional que levou a eleição para o
segundo turno, trazendo questões como o aborto, questões que eu achava
que já tinham desaparecido - lamenta Palmério.
Confira a entrevista.
Terra Magazine - Você pôs um trecho de "Recordações do Escrivão
Isaías Caminha", de Lima Barreto, como prefácio de "Crime de imprensa".
Ele tinha uma visão bem ácida do jornalismo. De lá pra cá, a coisa tem
piorado?
Palmério Dória - A situação é praticamente a mesma. Porque ele
verifica as famílias e constata que o domínio dos "Grandes Irmãos" já
prevalecia. Isso piorou porque há uma concentração maior do poder da
mídia. A Globo chegava a dominar 100% da audiência, nos anos 70 e 80.
Ainda outro dia, a Globo dominava. Isso mudou. Existe uma abertura
maior. Agora tem a força da blogosfera, que, de repente, se articula
numa espécie de cadeia da legalidade, para citar o episódio do Brizola
(em 1961). Isso melhorou. Mas também tem os dois lados. Pode ser a
internet do bem e do mal. A internet do mal procovocou aquela peste
emocional que levou a eleição para o segundo turno, trazendo questões
como o aborto, questões que eu achava que já tinham desaparecido.
No livro, vocês sustentam que os principais grupos de comunicações
do País apoiaram a candidatura de José Serra e se comportaram com
parcialidade nas eleições. Essa postura tem se refletido na cobertura
do governo Dilma ou houve uma mudança?
Essa postura não mudou. A Dilma enfrentou, durante a campanha, uma
espécie de túnel de trem fantasma. A cada curva, havia uma cilada, um
sobressalto, uma chamada "bala de prata". Hoje a imprensa continua
assim, apesar de ela ser uma das três mulheres mais poderosas do
planeta. Pra mim, é a segunda mais poderosa, porque Hillary Clinton
(secretária de Estado dos EUA) é uma empregada. Apesar de ser
presidente do maior país do hemisfério sul, Dilma é tratada como uma
qualquer. A imprensa vai engolir. De maneira geral, não mudou a
atitude. Ela não era um poste, não era e não é uma laranja, ela segurou
a base política, a fisiologia, e de uma maneira geral os números estão
comprovando que ela caiu até no gosto popular. Agora, descaradamente,
só o "Estadão" assumiu que apoiava o Serra, através de um editoral. Os
outros, não. A "Folha" gosta de parecer isenta, coisa que ela não é.
Essa pluralidade é tão artificial quanto perna de pau.
Mas até que ponto assumir um candidato é positivo? Isso não pode influenciar, negativamente, o leitor ou o telespectador?
É positivo, sim. A Carta Capital também assumiu. É tocada por um grande
jornalista (Mino Carta), que foi diretor da revista Quatro Rodas, da
Veja, e que já foi um dos mais poderosos editores da imprensa. Não se
pode dizer que a revista é pequena imprensa. A imprensa americana, que
é nosso padrão, assume os candidatos. Isso é muito bom. O problema é
dividir a notícia do editorial.
Discute-se muito o "silenciamento" da chamada grande mídia sobre
temas que, em tese, desagradariam os grupos partidários com que os
jornais e televisões mais simpatizam. Isso teria ocorrido, neste mês,
com o livro "A privataria tucana". Para não cair numa teoria
conspiratória, você acha que essas omissões ocorrem de forma inercial
ou vertical, como uma determinação?
Esses "grandes irmãos" parecem que combinam entre si. É inexplicável. No caso do livro, o
timing
foi o mesmo. Eles mantiveram o silêncio total, que durou uma semana. É
pendular. Eles saíram juntos do silêncio total: a imprensa e o partido
atingido (o PSDB). E agora partiram para o berro, esquecendo que bom
tucano não berra. Se eu fosse pauteiro de um jornal, e já fui, veria
que saiu a Carta Capital (com capa sobre o livro de Amaury Ribeiro
Jr.), falando de corrupções numa escala de bilhões. Sendo pauteiro, é
natural que você diga: pega um repórter para apurar isso. Mas, não.
Todo o exército da grande imprensa estava dedicado a perseguir
(Fernando) Pimentel, o amigo da Dilma. Não estou discutindo a
corrupção, a escala da grana, nem o caso do Pimentel. Mas o exército
todo estava caçando Pimentel. São essas contradições que mostram que
não há isenção. Há um acordo tácito.
Os repórteres não podem ousar mais? Não ocorre também aqueles casos
em que os repórteres imaginam o que o patrão gostaria que eles fizessem?
Acredite, mas eu já fui moleque e até jovem repórter. Havia nas
redações os repórteres que faziam o trabalho sujo. Nós até
agradecíamos. O "Estadão" tinha seus homens que faziam esse trabalho,
"vamos pegar fulano de tal", de interesse da empresa. A gente sabia
quem fazia isso claramente. Hoje, pegam esses meninos "trainees" pra
fazer capa da "Veja" demonizando o MST. Bem jovens, e já estão mandando
brasa, mora. Trabalhei na imprensa alternativa e sei que nós éramos
bois de piranha, fazíamos as matérias que a grande imprensa não poderia
publicar, como a matéria do "EX" sobre a morte do Vlado (Herzog).
Depois essa matéria, Ricardo Kotscho ampliou os limites da liberdade de
imprensa, coordenando uma matéria sobre a mordomia (publicada em "O
Estado de São Paulo"). Ele me disse: "Porra, aquela matéria do EX
ampliou os nossos limites". Tanto que as duas disputaram o Prêmio Esso.
Vendeu a da mordomia, mas ficamos com os votos de Castelinho (Carlos
Castelo Branco) e de Cláudio Abramo. Cada repórter vai conquistando sua
margem de liberdade. Mas, cada vez menos os repórteres dizem: "não,
isso eu não faço".
Você falou rapidamente, no início da conversa, sobre a presença política da internet. De que forma ela alterou o debate público?
No livro, citamos o editor do "The Guardian". Ele falou que, hoje em
dia, temos uma gráfica em casa. Quando há temas muito complexos, até
para os padrões ingleses (poderes podres ou grandes poderes), ele vai
jogando pitadas no Twitter dele. Isso num grande jornal, com um grande
editor... Desde Gutenberg não vejo nada tão espetacular. Não dá ainda
para medir. O buraco é muito embaixo.
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