Da Tribuna do Norte
Os atrasos na organização da Copa do Mundo 2014 em Natal, não se
resumem às obras de mobilidade urbana. Às vésperas de assinar o
contrato de financiamento das intervenções com a Caixa Econômica
Federal (CEF), o Executivo Municipal terá um novo e imediato desafio:
viabilizar as desapropriações para o início das construções, no menor
espaço de tempo possível. Sem a retirada dos imóveis da linha traçada
para a construção de novos empreendimentos de engenharia, a execução
dos projetos poderá sofrer novos adiamentos. A expectativa é de que as
obras comecem em março de 2012, conforme análise da Secretaria
Municipal de Obras Públicas e Infraestrutura (Semopi). Serão
necessários, neste primeiro momento, R$ 25,8 milhões para custear as
desapropriações.
Ontem,
pela primeira vez e na tentativa de esclarecer dúvidas, uma audiência
pública foi realizada no Auditório do Centro de Tecnologias do Gás
(CTGás) com a participação de representantes do Ministério Público
Estadual, Semopi, além de entidades representativas dos moradores dos
bairros nos quais ocorrerão desapropriações. Para o promotor de Defesa
do Meio Ambiente e membro da Comissão de Acompanhamento das Obras,
Márcio Luiz Diógenes, a audiência ocorreu no tempo certo. Visto que,
nenhum decreto foi publicado ou nenhum valor de indenização foi
calculado.
Em uníssono, moradores do Bom Pastor, Quintas, KM-6 e
moradores da Av. Cap. Mor Gouveia, questionaram a viabilidade das obras
e quem seria o responsável pelo saldo devedor proveniente das
intervenções. "Até agora, não sabemos se seremos atingidos ou não pelas
obras. Falta transparência por parte do Município", relatou a
representante da Associação Potiguar dos Moradores Atingidos pelas
Obras da Copa 2014, Iris Rocha. Ela é moradora do Bairro KM-6 e afirmou
que até hoje não foi consultada sobre a possibilidade de sair da
residência na qual mora em favor da obra.
Conforme levantamento
da Semopi, a casa de Iris Rocha soma-se a mais 428 imóveis que deverão
ser desapropriados para viabilizar as obras do primeiro lote - que
compreendem intervenções na Av. Felizardo Moura, Complexo Viário da
Urbana e BR-226 (Av. Industrial João Mota).
O titular da
Semopi, Sérgio Pinheiro, descreveu como "um processo complicado", a
questão das desapropriações. Os presentes na audiência, porém,
afirmaram estar cansados do discurso do Município e cobraram ações
imediatas. "O povo quer uma resposta clara. De respostas evasivas,
estamos cansados. Vocês acham que estamos aqui só como plateia?",
indagou Iris Rocha.
O secretário municipal de Obras Públicas e
Infraestrutura adjunto, Walter Fernandes, defendeu-se afirmando que
estava ali para aprender e ouvir com a população presente.
"Infelizmente, não temos como dar informações pontuais nesta reunião",
resumiu. Ele ressaltou, ainda, que novas audiências setoriais poderão
ser realizadas para que os problemas de cada comunidade sejam
discutidos de forma mais completa e direcionada.
Sobre o
processo de desapropriação, Walter Fernandes esclareceu que a
Procuradoria Geral do Município (PGM) irá comunicar cada proprietário
sobre o valor do imóvel e a publicação do decreto tornando a construção
e o prédio de interesse público. Questionado sobre o valor a ser pago
às famílias, Sérgio Pinheiro afirmou que foram seguidas as regras
comuns e os custos serão baseados no mercado, na titularidade da posse
e no tipo de construção. Uma equipe da Prefeitura é responsável pelo
trabalho de levantamento dos valores. Até agora, nenhum custo de
desapropriação foi estabelecido.
O diretor do Conselho Popular
da Copa 2014, Marcos Dionísio, afirmou que pela primeira vez houve um
diálogo sobre as desapropriações. Ele julgou como "legado indesejado"
as obras de mobilidade urbana que foram concebidas sem a participação
popular. "Nossa herança serão as contas à pagar por estas obras que
serão feitas sem estudos específicos", afirmou.
Obras de mobilidade devem ser entregues fora do prazoO
titular da Secretaria Municipal de Obras Públicas e Infraestrutura
(Semopi), Sérgio Pinheiro, comentou, pela primeira vez, que a execução
das obras de mobilidade urbana contempladas no Lote 1 poderão não ser
entregues dentro do prazo estabelecido pelo Ministério das Cidades, que
é dezembro de 2013. "As obras do Lote 1 poderão ter algum problema de
execução do prazo devido a questões das desapropriações, que foge à
alçada do gestor público", defendeu.
Ele alegou que, além da
questão dos valores, outros pontos envolvem a retirada das famílias da
área de interesse público. "Muitas famílias irão julgar o valor
indevido e irão recorrer à Justiça. Além disso, há também o apego
emocional, a proximidade dos familiares", ressaltou.
Em
contrapartida, o secretário afirmou que as obras do Lote 2 - ainda sem
projetos executivos para a abertura da licitação - estarão prontas até
o final de 2013. "As obras do Lote 2 não tem maiores preocupações. Elas
podem começar ao mesmo tempo", explicou. Durante a audiência realizada
ontem, os populares presentes cobraram do secretário a elaboração de
projetos alternativos. Questionado sobre o teor de tais projetos,
Sérgio Pinheiro afirmou desconhecê-los.
Ele ressaltou, porém,
que qualquer alteração nos projetos executivos entregues à Caixa
Econômica Federal deverão ser analisados e aprovados pelo Setor de
Engenharia do banco, além do aval do Ministério das Cidades. "Os
projetos foram apresentados à população em várias ocasiões. A população
era consciente de que as mudanças eram previstas. Hoje, qualquer
alteração nos projetos representará um custo extra de 100% ao
Município".
Questionado sobre o conteúdo dos documentos
devolvidos à Caixa Econômica Federal na sexta-feira passada, o titular
da Semopi esclareceu que se tratavam de planilhas complementares
relacionadas aos custos das obras do Lote 1. "Foram alterações de
valores, de custos de alguns itens que estavam divergentes em algumas
planilhas. Alguns preços foram cotados no Rio de Janeiro e São Paulo e
deveriam ter sido localmente", explicou.
Além disso, Sérgio
Pinheiro confirmou que houve uma redução do valor final da obra quando
comparados os projetos básico e executivo. "Reduzimos o valor de R$ 137
milhões para R$ 108 milhões. Faremos um aditivo com a EIT Engenharia,
reduzindo o valor do contrato de execução das obras e adequando alguns
valores", disse. Sobre a remoção da Urbana do atual prédio, na esquina
das Avenidas Mário Negócio e Bernardo Vieira, o secretário disse que
toda a estrutura da autarquia será transferida para o antigo prédio da
Semurb, na Ribeira, após abertura de processo licitatório para reforma
da edificação que está em ruínas.
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