Por Najla Passos
Na Carta Maior
A Câmara dos Deputados vai tentar buscar no ano que vem formas de
garantir a sobrevivência financeira de veículos de comunicação que
fazem parte da chamada imprensa alternativa, como rádios comunitárias,
portais e blogs na internet. O centro dos debates será a Comissão de
Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática, que nesta quarta-feira
(21), penúltimo dia de trabalho parlamentar, instalou uma subcomissão
só para cuidar do tema em 2012.
A criação do grupo foi proposta
pela deputada Luciana Santos (PE), cujo partido, o PCdoB, sentiu-se
vítima da imprensa tradicional no caso das denúncias que levaram à
demissão do ex-ministro comunista Orlando Silva. Em recente reunião do
comitê central, o PCdoB
avaliou também que a grande mídia seria a líder de uma oposição conservadora ao governo Dilma, que o partido apoia.
Segundo
Luciana, que será relatora da subcomissão, o grupo vai estudar uma
melhor distribuição dos recursos públicos e privados direcionados à
mídia em geral, o que, na opinião dela, seria importante para aumentar
a capilaridade da comunicação no país e ajudar a democratizá-la.
A intenção é ir além da política de regionalização da publicidade oficial federal
instituída pelo ex-presidente Lula e
mantida
pela presidenta Dilma Rousseff. Para Luciana, é necessário também
envolver recursos destinados à produção de conteúdos, inclusive os
provenientes da iniciativa privada, via leis de incentivo e outros
mecanismos.
Ela conta que se familiarizou com o assunto quando
foi secretária de Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco. Uma das
atribuições do cargo era coordenar a TVPE, veículo tradicional do
estado. “À frente da TV, me envolvi com o tema e não o abandonei mais,
por considerá-lo de extrema importância para a consolidação da
democracia brasileira”, disse.
Foi na 1ª Conferência Nacional de
Comunicação (Confecom), em 2009, que ela tomou conhecimento de que há
mais de uma dezena de projetos no Congresso sobre financiamento da
mídia alternativa. “Não queremos reinventar a roda, mas discutir esses
projetos que já existem, além das contribuições formuladas pelo governo
e pelos movimentos”, afirma.
Eleito por unanimidade, inclusive
com os votos do PT, o presidente da subcomissão será Júlio Campos
(DEM-MT), tem perfil bem diferente. A começar pelo partido, de oposição
ao governo.
Ex-governador de Mato Grosso, foi, por mais de 20
anos, proprietário do maior grupo de comunicação do estado, que incluía
canais de TVs, rádios e jornais impressos. Depois de amargar algumas
derrotas políticas, acabou perdendo a maior parte das empresas e foi
obrigado a “passar adiante” antigas concessões.
Mas, a despeito
de sua forte ligação com a imprensa convencional, Júlio Campos afirma
reconhecer a importância que a mídia alternativa adquiriu nos últimos
tempos. “Qualquer município do interior possui, hoje, um site de
notícias que informa a população e fomenta a democracia. Entretanto,
mais de 95% dos recursos de publicidade oficial ainda são destinados
aos canais da mídia convencional”, afirma.
Segundo ele, nas
suas andanças pelo vasto interior de Mato Grosso, tem observado que,
atrás da mesa de cada locutor, seja das rádios comerciais quantos das
comunitárias, está um computador conectado à internet. “São as mídias
alternativas da rede mundial de computadores que pautam a imprensa de
todo o país e que fazem a informação chegar às populações dos locais
mais longínquos”, diz.
Questionado se criação da subcomissão,
pautada por uma deputada do PCdoB, tem a ver com o momento político
vivido pelo país, em que a mídia convencional tenta condicionar a
política, derrubando sucessivos ministros, Júlio Campos admite que esse
contexto influencia, mas não é definitivo.
“As mídias
alternativas também pautam as disputas de poder”, alega ele, sem deixar
de reconhecer que o poder da mídia convencional é, de fato, muito
superior ao do Executivo.
“Eu sempre digo que, antigamente, o
Brasil tinha três poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Depois, veio a imprensa e se tornou o quarto poder. Hoje, temos em
torno de cinco, mas em ordem de importância inversa: a Imprensa é o
primeiro, seguida pelo Ministério Público. Só depois temos a Justiça, o
Legislativo e, por fim, o Executivo, que não manda mais nada”, analisa.
Comentários
Postar um comentário