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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Questões de linguagem: O discurso da invasão


Ia falar sobre o ultimato dado pela justiça contra os estudantes que ocupam a reitoria da Universidade de São Paulo. Mas me vi forçado a novamente falar sobre a disputa lingüística na imprensa, que já havia destacado ontem.

A Folha de São Paulo publicou um editorial e quatro textos sobre a ocupação da reitoria da USP (além de um artigo falando sobre maconha na Universidade, de Hélio Schwartsman). Publicou um texto sobre os Occupy, dessa vez enfocando Oakland e os conflitos que ali aconteceram ontem. Texto pessimamente, escrito, aliás. Tenho a impressão que fala em Scott Olsen, mas sem citar nome e errando dados, fica difícil de entender.
Nos textos sobre a USP, dezessete referências a palavras em torno da idéia de invasão (sete vezes aparece "invasores", cinco vezes "invasão", cinco vezes o verbo "invadir", em formas pessoais ou conjugado). Apenas três vezes aparece termos relacionados à ocupação: uma das matérias diz que o "local está ocupado"; no editorial, as citações são a "ocuparam", "ocupação" e "ocupantes".

A imensa maioria de citações referentes a invasão servem a um enquadramento que criminaliza a ação dos estudantes.

No caso do texto acerca do #OccupyOakland, não há referência a termos relacionados à invasão e uma vez a palavra "ocupe", relacionada a Wall Street. Um enquadramento muito menos agressivo em um texto mal escrito.

O editorial da Folha, em que chama os estudantes da USP de "paranóica minoria" que agride a democracia, o ensino e a pesquisa, é o único texto em que palavras relacionadas à ocupação preponderam - inclusive com o uso em formas mais próprias ao contexto de lutas. São três contra duas relacionadas à invasão. Não precisavam forçar mais, uma vez que os qualificativos encontrados para denunciar os estudantes não podiam ser piores. Aliás, o texto em si é paranóico. Afinal a um grupo que reúne mais cerca de mil e cem estudantes na assembléia que decidiu desocupar o prédio administrativo da faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas não cabe o epíteto de minoria, muito menos paranóica.

Por outro lado, uma universidade administrada pelo segundo colocado nas eleições, o reitor Rodas, e que mente a respeito das decisões dos servidores nos conselhos superiores, também não pode ser chamada de democrática.

Por fim, um jornal que criminaliza dessa maneira as ações dos estudantes uspianos em defesa de sua liberdade mas enquadra de maneira completamente diversa os movimentos occupy nos Estados Unidos não pode ser considerado fazendo jornalismo de verdade. Aliás, apoio no Brasil apenas a movimentos de rua que visem derrubar o governo - nunca para defender mais democracia. Talvez por isso tenham levado dez dias para falar sobre o OcupaSãoPaulo no viaduto do Chá - a ocupação começou em 15 de outubro, mas somente foi noticiada pela Folha no dia 25.

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