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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Minha viagem a Alagoas

Coqueiral do "dono" da praia do Gunga


Estive nos últimos dias em Alagoas. Fui ao casamento de um casal amigo. Fiquei encantado com a beleza de Maceió e das praias que conheci - Gunga e Barra de São Miguel. Já conhecia Maceió e Paripueira, mas essa visita me permitiu maior atenção às belezas do lugar. E não apenas às belezas.

Parte da beleza de Alagoas têm uma imponência, uma extravagância e uma riqueza de cortar o coração. Não que não haja ricos em outras partes do país e do mundo, mas em nenhum lugar em que eu já tenha estado a riqueza de poucos é tão claramente o resultado da exploração e da miséria de milhares que estão ao seu lado nas cidades e vilas. Ao lado de belas fazendas, com imensas casas-grandes, uma população paupérrima em condição insalubre sustenta a riqueza do vizinho.


Mesmo na festa de casamento em que fui, a mansão à beira-mar onde se realizou o casamento, construída à base da monocultura da cana-de-açucar e da extração de sal-gema - consequentemente com muito trabalho alheio explorado -, ocupa uma faixa de areia de uma bela praia que não é tão pública quanto devia ser. Ninguém produz cana sem explorar o trabalho de outros - centenas ou milhares.

Em dados de 2003, cerca de 65% da população alagoana estava abaixo da linha da pobreza. Os números comprovam que tanta riqueza e tanto esplendor somente são possíveis com a exploração massiva de uma população já miserável. Só há ricos assim porque exploram a mão-de-obra dos pobres e os mantém miseráveis.

Por isso, a imagem mais chocante que eu vi foi a beleza da praia do Gunga, a 35 km de Maceió. De um lado, a cultura da cana-de-açúcar. A beira-mar, a produção de coco. A área foi privatizada sob acusações de grilagem e é uma imensa fazenda, somente há poucos anos aberta ao público. Nas barracas, onde sobrevivem alagoanos pobres, as indicações do apoio do dono da área através das iniciais “NJ”.

Além da exploração de duas culturas que não deixam nenhuma riqueza para a população local o que choca é perceber uma área tão extensa, à beira-mar (que devia ser pública), ter um “dono”.

Maceió e Alagoas são os exemplos mais patentes de que só há riqueza porque há miseráveis que a sustentam. No dia em que esses pobres da terra tomarem consciência disso perceberão que, juntos, são mais fortes que o poder do capital.

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