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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

USP homenageia vítimas da "Revolução de 64"?

Por Conceição Lemes


Alunos, professores e funcionários administrativos da USP estão sem entender. Como num verdadeiro abracadabra, um “Monumento em Homenagem e Cassados na Revolução de 1964” começou a ser feito na Cidade Universitária. É na Praça do Relógio, em frente ao anfiteatro, ao lado do bloco A do CRUSP.

Ninguém sabe de onde veio a ordem para fazê-lo. Ninguém debateu. Ninguém opinou sobre a sua construção. Nem mesmo professores que trabalham com direitos humanos têm ciência do que realmente se trata. Não se tem ideia do que simbolizará nem como será o seu desenho.

Seria uma obra de “geração espontânea”? Como se aprova um “monumento” desse na Cidade Universitária e a comunidade uspiana não é ouvida?

Serão gastos 89 mil reais e a obra está a cargo da Scopus Construtora e Incorporadora, como se lê na placa.Atua no ramo da construção civil:
A Scopus é uma velha conhecida do governo do estado e da prefeitura de São Paulo.


Como não se conhece o projeto do “monumento”, não dá para aferir se a Scopus tem expertise na área. Uma coisa é certa: entre as principais listadas da Scopus não consta nenhum monumento.

A propósito, quem está pagando a Scopus? Houve licitação?
Pela placa seria um projeto da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República. Será que a ministra Mário do Rosário sabe disso? Aprova os dizeres? E a Petrobras, que teoricamente patrocina o projeto, concorda? Curiosamente não há na placa logotipo do governo federal.

“A placa foi feita casualmente por um burocrata ou os termos que nela constam serão os do próprio monumento?”, questiona o professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “Se o monumento é para as vitimas da ‘revolução’, então ele não é da esquerda, e sim de eventuais torturadores que morreram, como o Fleury [delegado Sérgio Paranhos Fleury].”

“É tudo muito estranho, especialmente num momento delicado como este em que se aprova a criação da Comissão da Verdade”, observa a cientista social Maria Fernanda Pinto. “Como instituições de Direitos Humanos propõem um monumento aos que foram mortos pela ditadura com esse nome de ‘Revolução de 64’? Revolução de 64 é a pauta da direita. Para nós, foi um golpe militar-civil. E por que pontuar 1964? É como os 20 anos da ditadura não tivessem existido. Só que existiram e muitos tombaram.”

“O que todos nós esperamos é que haja um monumento em memória das vítimas do Golpe de 64 na nossa universidade”, observa o professor Lincoln Secco. “Proporcionalmente, a USP foi uma das instituições que mais perdeu alunos e professores assassinados.”

“O Crusp foi um dos últimos bastiões do movimento estudantil”, defende Maria Fernanda. “Nós queremos também renomear os blocos do Crusp. Hoje, são A, B, C… Nós queremos que tenham o nome dos alunos e professores da USP que tombaram na ditadura.”

Com a palavra a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, e o reitor da USP, João Grandino Rodas.

Recentemente Rodas foi declarado persona non grata no Largo São Francisco pela Congregação da Faculdade de Direito da USP, da qual foi diretor. A Congregação é a instância máxima de uma faculdade, nela votam representantes de alunos, funcionários e professores (são a maioria). Essa declaração foi aprovada por unanimidade.

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