
Quem foi, quem é Soledad Barrett
Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros
desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo,
que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo
Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes
contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja
São Bento”. Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais
eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.
Nota do Correio do Brasil: O programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo,
entrevista nesta segunda, às 22 horas, o ex-militar José Anselmo dos
Santos, o Cabo Anselmo, ex-participante de um motim na Marinha, nos
anos 60, que, após um período de exílio em Cuba, voltou para o Brasil,
foi preso e delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos
Fleury, do DOPS. A lista de denunciados incluiu sua companheira,
Soledad Viedma, que acabou torturada e morta pela ditadura. A TV
Cultura escolheu o Cabo Anselmo como entrevistado para marcar a estreia
de Mario Sergio Conti, ex-diretor da Veja e atual diretor de redação da
revista Piauí, na condução do programa.
A escolha se dá justo no momento em que se discute no Brasil a
instalação da Comissão da Verdade, que enfrenta muita resistência de
setores que insistem em manter na penumbra fatos ocorridos em um dos
períodos mais tenebrosos da história do Brasil. Publicamos a seguir um
artigo do escritor Urariano Mota, autor de um livro sobre Soledad
Viedma.
Por Uraniano Mota
No Correio do Brasil
Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura
militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao
delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denuciados incluía
sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta devido à tortura.
Quem lê “Soledad no Recife” pergunta sempre qual a natureza da minha
relação com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do
Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que não fomos amantes, que não fomos
namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto
vida eu tiver. Então os leitores voltam, até mesmo a editora do livro,
da Boitempo: “mas você não a conheceu?”. E lhes digo, sim, eu a
conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.
Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama,
que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela
foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem
remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução.
Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou
chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o
ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E
tudo é, ou quase tudo.
Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer
escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um
cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois
o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira
Marques, vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a
própria vida para não sacrificar a da sua mulher, grávida, com o “bucho
pela boca”. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam
à sua procura, ele se negou a fugir, para que não fossem em cima da
companheira, muito frágil, conforme ele dizia. Que escritor épico seria
capaz de espelhar tal grandeza?
E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a
pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes.
Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até
em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não
houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que não fosse a
socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a
gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael
Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim…
ainda assim o quê?
Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos
e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha.
Aqui e além deste século”. Porque olhem só como sofre um coração. Para
recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de
quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem,
quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia.
Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo,
procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um
personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em
toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os
agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e
serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à
traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro
filho. Se duvidam da perversão, acompanhem o depoimento de Alípio
Freire, escritor e jornalista, ex-preso político:
“É impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de
militantes – é um documento que foi encontrado no Dops do Paraná. É
algo absolutamente inimaginável e que, de tão diferente de todas as
ignomínias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos
referirmos ao assunto.
Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros
camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual
dá o histórico de família, etc.), o que ele diz é mais ou menos o
seguinte:
‘É verdade que estou REALMENTE ENVOLVIDO pessoalmente com ela e,
nesse caso, SE FOR POSSÍVEL, gostaria que não fosse aplicada a solução
final’.
Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem
perder a ternura, jamais) as tragédias. Mas fiquei durante umas três
semanas acordando à noite, pensando e tentando entender esse abismo,
essa voragem”.
Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da
guerra suja da ditadura no Brasil. Vocês entendem agora por que o livro
é uma ficção que todo o mundo lê como uma relato apaixonado. Não seria
possível recriar Soledad de outra maneira. No título, lá em cima,
escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito,
Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher
que apredemos a amar.
(*) Urariano Mota, 59 anos, é natural de Água Fria, subúrbio da zona
norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento,
Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura.
Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do
Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente
também já veicularam seus textos. Autor de Os corações futuristas
(Recife, Bagaço, 1997), um romance de formação, que se passa sob a
ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), e de Soledad no
Recife (São Paulo, Boitempo, 2009).
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