Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Semana passada, foi a vez da Nature publicar uma capa com
outra pesquisa de Nicolelis, sobre a qual falamos aqui. Não foi sua primeira vez nas páginas da revista britânica.
A Universidade de Pittsburg publicou uma pesquisa financiada
por US$ 75 milhões pelo Darpa em que um paciente humano pôde movimentar um
braço mecânico. Tudo parece muito desconexo, assim como aparenta ser uma
tempestade neuronal. Mas não é.
A pesquisa de Pittsburg me parece a um leigo no assunto, mas
que conhece um pouco de método científico, uma das possíveis aplicações de uma caminhada científica
que foi explicitada em muitos textos, como esse a seguir da Revista Brasileiros de 2008:
"A gente descobriu que podia fazer mais do que apenas ler o código" do
impulso elétrico emitido pelos neurônios. "Era possível decifrar o
código e eventualmente enviá-lo para controlar uma prótese mecânica",
no caso um braço-robô. Foi isso que sua equipe fez em 1998. Implantou
elétrodos no cérebro de um camundongo, conectando-os a 50 neurônios. O
implante reconheceu o sinal do cérebro do roedor. Ele conseguiu
controlar o braço-robô que apertava uma alavanca, oferecendo água como
recompensa.
No ano seguinte, 1999, foi a vez de Belle, uma macaca-da-noite, espécie
sul-americana. O implante em 90 neurônios permitiu pela primeira vez a
um primata mover um braço robótico com a força do pensamento. A
repercussão da façanha fez com que o trabalho de Nicolelis alcançasse
as manchetes da imprensa. Sua pesquisa foi listada em 2001 pelo
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) como uma das dez
tecnologias que vão mudar o mundo. Desde então, esse paulistano de 47
anos, completados em 7 de março, colecionou uma porção de premiações e
publicou dezenas de artigos nas mais conceituadas publicações
científicas do planeta.
Em 2003, foi a vez de uma macaca rhesus chamada Idoya. Essa espécie tem
um cérebro muito mais complexo que o de Belle, e mais parecido com o
humano. O experimento usou 500 neurônios e consistiu em captar o sinal
do cérebro de Idoya e enviá-lo para o MIT a 1.000 quilômetros de
distância, onde fez um braço-robô de 90 quilos se mover. Em 2004, ao
tentar pela primeira vez o implante em humanos, no caso pacientes com
mal de Parkinson, Nicolelis provou que o mesmo conceito também poderia
ser aplicado ao Homo sapiens. Em 2005, foi a vez da macaca rhesus
Aurora, cujos sinais cerebrais foram registrados quando ela usou um joy
stick para jogar videogame.
Traduzidos, os sinais foram usados para comandar um braço mecânico. De
lá para cá, o neurocientista comprovou que o experimento também pode
ser aplicado aos membros inferiores, ou seja, a leitura dos neurônios
não é apenas capaz de mover braços, mas também pernas robóticas. Foi o
que o brasileiro fez em 2007. "Um macaco no meu laboratório começou a
andar numa esteira. Nós registramos a atividade neural e enviamos o
sinal via satélite em 100 milissegundos para o Japão, onde um robô em
Kyoto andou sob o controle do sinal do macaco." No mesmo instante, o
robô passou a enviar sinais ao macaco para que este tivesse uma noção
de como o robô andava. "Completamos o looping em 240 milissegundos. É
menos do que um sinal elétrico leva para sair do cérebro do macaco e
atingir a sua perna."
A conquista mais recente aconteceu em 15 de janeiro de 2008. Repetiu-se
a experiência do macaco andando controlando um robô em Kyoto, só que
com uma diferença fundamental: o macaco podia ver o robô num monitor à
sua frente, e era recompensado quando andava em sincronia com o robô
(que estava sob o controle do macaco). Passada uma hora, a esteira foi
desligada, mas o primata continuou dirigindo a caminhada do robô.
Uma parte do cérebro do macaco tornou-se dedicada a controlar o robô,
como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. "Vamos fazer o anúncio
oficial daqui a algumas semanas, quando sair publicado na Nature", revela Nicolelis. "Mas eu inverti a ordem dos fatores e decidi daqui por diante anunciar nossos trabalhos informalmente."
Não me parece, também, que tais processos possam ser
caracterizados somente como uma disputa por verba ou reconhecimento. Na verdade, as interações científicas são
sempre possíveis e necessárias e conduzem a resultados sempre mais ou menos
expressivos. Ainda que tantas vezes se dêem em meio a segredos industriais ou, até, militares.
Resta, no entanto, o questionamento sobre os dados da pesquisa
publicada em Pittsburg, como bem colocou Nicolelis no twitter ontem à noite.
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