Por Pedro Pomar
No Escrevinhador
O Senado Federal aprovou por unanimidade em 26/10, em regime de
urgência e sem emendas, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 88/2011, que
cria a Comissão Nacional da Verdade. Agora, a matéria deverá ser
sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, a quem caberá nomear os sete
membros da nova Comissão.
Durante a audiência pública realizada em 18/10 na Comissão de
Direitos Humanos do Senado, e também na votação do relatório do senador
Aloysio Nunes (PSDB) na Comissão de Constituição e Justiça, em 19/10,
alguns senadores manifestaram a disposição de apresentar emendas ao
projeto, atendendo às reivindicações das entidades que representam
familiares das vítimas da Ditadura Militar. No entanto, o governo se
manteve intransigente e esses senadores recuaram na votação em
plenário, desistindo de apresentar emendas.
Na audiência pública, presidida pelo senador Paulo Paim (PT-RS),
houve unanimidade em torno de sete emendas de mérito. Elas foram
propostas por representantes de ex-presos políticos, de familiares dos
mortos e desaparecidos políticos e de grupos de direitos humanos; pelo
secretário-geral da OAB, Marcus Vinicius Coelho; e pela procuradora da
República Gilda Carvalho. As senadoras Ana Rita (PT-ES) e Lídice da
Mata (PSB-BA) e os senadores Pedro Taques (PDT-MT), Randolfe Rodrigues
(PSOL-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS) solidarizaram-se com os familiares e
deram apoio às mudanças propostas.
Contudo, nem os ministros convocados (Maria do Rosário e José
Eduardo Cardozo) nem o relator do projeto compareceram à audiência
pública, embora tivessem sido convidados. E já no dia seguinte o tucano
Aloysio Nunes apresentava seu relatório, rejeitando, uma por uma, as
emendas convalidadas pela Comissão de Direitos Humanos.
A expressão “Ditadura Militar” sequer aparece no texto aprovado. O
período a ser investigado é o “fixado no art. 8º do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias” e não 1964-1985. Além disso, o texto
atribui à Comissão a finalidade de “promover a reconciliação nacional”,
ao invés de fornecer subsídios para que o Ministério Público possa
processar os agentes da Ditadura que praticaram atrocidades.
Na audiência pública de 18/10, vários oradores se opuseram a essa
ideia de “reconciliação nacional”, lembrando que é (ou deveria ser)
outra a natureza da Comissão da Verdade: contribuir para que, uma vez
esclarecidos os crimes cometidos, se faça justiça e sejam punidos os
criminosos que praticaram o terrorismo de Estado.
A sessão plenária de 26/10 passará a figurar como uma das mais
bizarras da história do Senado: no mesmo dia em que mais um ministro
(Orlando Silva) foi derrubado por obra da oposição, senadores
governistas incensavam o senador Aloysio Nunes por seu “maravilhoso
relatório” (assim expressou a senadora Marta Suplicy, que presidiu os
trabalhos) e até o senador Demóstenes Torres (DEM), após destacar seu
próprio ― suposto ― passado de luta contra a Ditadura, irmanou-se à
confraternização geral dos seus pares, todos festejando a
“reconciliação nacional” prometida pela Comissão da Verdade.
Os familiares das vítimas ― e todos aqueles que lutaram contra a
Ditadura e foram por isso torturados, condenados e presos ― foram
profundamente desrespeitados, uma vez mais. Não há nenhuma garantia de
que a Comissão que vier a surgir da lei a ser sancionada avance em
relação ao que já se sabe.
Assim, enquanto o Senado do Uruguai derruba a Lei da Caducidade e
retoma o acerto de contas com a Ditadura que infelicitou o país;
enquanto a Argentina condena à prisão perpétua o ex-capitão Alfredo
Astiz, covarde torturador e assassino de presos políticos, e encarcera
almirantes e generais que cometeram crimes no regime ditatorial… no
Brasil o pacto com os chefes militares ainda continua em plena
vigência. A ponto de se permitir a participação de militares na
Comissão da Verdade. Isso mesmo: a Comissão que terá a tarefa de
investigar os crimes da Ditadura Militar poderá ser composta também por
membros das Forças Armadas, conforme asseguram dois parágrafos do
artigo 7° da lei recém-aprovada.
Espera-se que a presidenta Dilma, ao designar os membros da
Comissão, não cometa tal desvario. Mas a possibilidade consta da lei
(por que será?) e foi expressamente defendida pelo ex-guerrilheiro e
ex-deputado José Genoíno, hoje assessor do Ministério da Defesa. E,
igualmente, foi admitida pelo relator Aloysio Nunes, que se recusou a
emenda que suprimia do texto do projeto os dispositivos citados.
Na visão do tucano, “essa discriminação contra membros das Forças
Armadas me parece absolutamente descabida, num momento em que as Forças
Armadas Brasileiras estão perfeitamente integradas à ordem
constitucional”. O senador ignora o motim dos comandantes militares e
do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, contra o Programa Nacional
de Direitos Humanos, em 2010? Ignora o Manual de Contra-Inteligência
aprovado pelo Exército em 2009, que manda espionar a sociedade civil,
conforme denunciado pela revista Carta Capital na edição de 19/10?
Os movimentos sociais pressionarão e fiscalizarão a Comissão da
Verdade para que ela produza resultados compatíveis com as expectativas
criadas, apesar do formato mesquinho da lei. Amargaram uma derrota, mas
seguirão em frente, como sempre fizeram até hoje. Muita gente
acompanhará os trabalhos da Comissão, quaisquer que sejam os seus
membros. O secretário-geral da OAB, que manifestou otimismo na
audiência pública de 18/10, ainda assim mandou um recado ao governo:
“Iremos denunciar publicamente se essa Comissão da Verdade vier a ser
um faz-de-conta”.
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