Por André Barrocal
Na Carta Maior
O depoimento do ministro do Esporte, Orlando Silva, à Câmara dos
Deputados nesta terça-feira (18), para se defender de denúncias, lotou
o plenário da Comissão de Fiscalização e Controle. Mas não foi só o
interesse jornalístico e da oposição ao governo que garantiu casa
cheia. Unido em torno do correligionário como não se costuma ver em
outras legendas com filiados embaraçados, o Partido Comunista do Brasil
(PCdoB) arrastou sua burocracia, as bancadas – que não são grandes - de
deputados e senadores e uma legião de assessores, no apoio ao ministro.
No
depoimento de quase quatro horas, os comunistas não economizaram
aplausos para as fortes declarações de Orlando Silva contra o detrator,
o policial militar João Dias Ferreira, ou para congressista, até de
outro partido, que saía em defesa do ministro.
Também fustigaram
adversários do governo, ao ironizar, por exemplo, o líder do PSDB,
Duarte Nogueira (SP), quando este voltara do Senado, depois de reunião
com João Dias, e dissera que o PM estaria precisando de “proteção
policial” contra ameaças.
Muitos dos militantes também fizeram
questão de acompanhar o ministro na entrevista coletiva que ele topou
conceder, mesmo depois do longo depoimento.
O motivo de
tamanha mobilização é o caráter partidário da acusação feita por João
Dias. Se o PM atingiu a jugular de Silva, ao afirmar que o ministro
comandaria esquema de corrupção no ministério, acertou também a aorta
do PCdoB, apontado como destino final do dinheiro desviado.
“Já enfrentamos ditaduras e detratores como esse há 90 anos. Isso não nos intimida”, disse à
Carta Maior o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, que assistiu ao depoimento.
Antes
da sessão, Rabelo recebera telefonema da ministra-chefa da Casa Civil
da Presidência, Gleisi Hoffmann, no qual ela se solidarizava com o
PCdoB pelos ataques desferidos no partido não só por João Dias, mas
também pelo noticiário.
Encarada como fomentadora de uma
espécie de campanha contra o PCdoB, a imprensa foi a vítima predileta
dos parlamentares comunistas, na sessão. A queixa principal repetiu
Orlando Silva. Seria inaceitável dar crédito a um testemunho sem provas
de alguém que já foi preso por desvio de verba do mesmo ministério que
acusa e que tenta reaver o dinheiro.
“Nem tudo é publicado na imprensa, mas nós sabemos quem é ele
[João Dias],
porque a informação circula livremente na internet”, disse a deputada
Manuela D'Ávila (RS). “Azar da mídia golpista que mexeu com o PCdoB,
que não tem medo. É da história do PCdoB a luta pela verdade”, disse a
deputada Perpétua Almeida (AC).
Líder do partido na Câmara,
Osmar Júnior (PI) irritou-se também com adversários do governo.
Reclamou que eles não acompanharam o depoimento, por estarem no Senado
fazendo um acordo com o PM para ele depor na Câmara, em vez de
aproveitarem que o ministro já estava ali, à disposição, para pedir
esclarecimentos. “Se ele
[o PM] quer palanque, que procure outro lugar”, disse.
Já
a deputada Alice Portugal (BA) verbalizou com todas as letras a
desconfiança de que Orlando Silva e o PCdoB estariam sendo alvejados
por causa da Copa do Mundo, numa ação de bastidores da Fifa contra o
jogo duro do governo. “É um tentativa de massacre para indicar
[no lugar de Orlando] um ministro genuflexo”, afirmou.
Ainda
não se sabe se os esforços comunistas serão suficientes para salvar o
ministro. Exatamente por causa da Copa, Orlando Silva encontra-se no
centro de uma área de apelo popular, o que aumenta a suscetibilidade
política do governo com denúncias no setor.
Além disso, a
leveza do PCdoB no Congresso (só 15 deputados e dois senadores) não
parece capaz de levar a presidenta Dilma Rousseff a se arriscar a
manter o auxiliar se as denúncias não estancarem.
Independentemente
disso, porém, o PCdoB está com o ministro para o que der e vier.
Inclusive irá explorar boa parte do programa eleitoral do partido na
TV, nesta quinta-feira (20), para defender-se e ao correligionário.
“O
PCdoB tem depositado inteira confiança no ministro. Ele diz que não tem
nenhuma relação com esse sujeito [João Dias] e que não tem nada a
temer”, disse Rabelo. “O partido tem se preocupado, dentro de suas
condições, em explicar à opinião pública o que está acontecendo e vamos
fazer isso na TV.”
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