Por Toni Negri e Michael Hart
No Outras Palavras
As manifestações sob a bandeira de
Occupy Wall Street
ressoam em tantas pessoas, não só porque dão voz a uma sensação de
injustiça econômica, mas também, e talvez mais importante, porque
manifestam sofrimentos e aspirações políticas. Ao espalharem-se da
parte sul de Manhattan para cidades grandes e pequenas por todo o país,
mostraram que a indignação contra a ganância das grandes corporações e
a desigualdade econômica é real e profunda. Mas, no mínimo tão
importante quanto isso, é o protesto contra a falta – ou o fracasso –
da representação política. Não é tanto a questão de se um ou outro
político, esse ou aquele partido, nada faz ou é corrupto (embora isso,
também, seja verdade), mas de se o sistema político representativo é,
em termos gerais, inadequado. Esse movimento de protesto pode, e talvez
consiga, converter-se processo democrático constituinte genuíno.
A face política dos protestos de
Occupy Wall Street aparece
quando o pomos ao lado de outros “acampamentos” do ano em curso.
Juntos, formam um ciclo emergente de lutas. Em muitos casos, as linhas
de influência são claras. Occupy Wall Street inspirou-se nos
acampamentos das praças centrais na Espanha, que começaram dia 15 de
maio, depois da ocupação da Praça Tahrir, no Cairo, no início da
primavera. A essa sucessão de manifestações, é preciso acrescentar
vários outros protestos, como as longas manifestações na Assembleia
Estadual em Wisconsin, a ocupação da Praça Syntagma em Atenas, os
acampamentos de israelenses por justiça econômica. O contexto desses
vários protestos são muito diferentes, claro; e não são simplesmente
repetição do que acontecera noutros lugares. Mas cada um desses
movimentos conseguiu traduzir para a própria situação alguns elementos
comuns.
Na Praça Tahrir, a natureza política do acampamento e o fato de que
os manifestantes não eram nem jamais seriam representados, em nenhum
sentido, pelo atual regime, eram visíveis. A exigência “Mubarak tem de
sair” mostrou-se suficientemente potente para envolver todas as demais
questões. Depois, nos acampamentos da Porta do Sol em Madri e da Praça
Catalunha em Barcelona, a crítica da representação política foi mais
complexa. O protesto espanhol reuniu vasto conjunto de demandas sociais
e econômicas – sobre o déficit público, moradia e educação, dentre
outras –, mas sua “indignação”, que a imprensa espanhola rapidamente
apontou como a emoção que os definia, foi claramente dirigida contra um
sistema político incapaz de tratar daquelas questões. Contra o arremedo
de democracia que o atual sistema representativo oferece, os
manifestantes dirigiram um dos seus principais slogans: “
Democracia real ya,” ou “Democracia real, já”.
Occupy Wall Street deve ser entendido, então, como mais um
desenvolvimento ou permutação dessas exigências políticas. Mensagem
alta e clara dos protestos, é claro, é que os banqueiros e as
indústrias da finança de modo algum nos representam: O que é bom para
Wall Street
com certeza não é bom para o país (ou para o mundo). E parte mais
significativa do fracasso da representação, portanto, deve ser
atribuída aos políticos e aos partidos políticos aos quais compete
representar os interesses do povo, mas que, de fato, só representam,
mais claramente, os bancos e os agentes que emprestam dinheiro. Esse
reconhecimento leva a uma questão aparentemente simplória, básica: a
democracia não deveria ser o governo do povo sobre a pólis – quer
dizer, sobre toda a vida social e econômica? Em vez disso, o que se vê
é que a política tornou-se subserviente aos interesses econômicos e
financeiros.
Ao insistir na natureza política dos protestos de
Occupy Wall Street,
não estamos dizendo que todas as questões políticas possam ser
equacionadas em termos das disputas entre Republicanos ou Democratas,
ou os resultados do governo Obama. Se o movimento continuar a crescer,
é claro, talvez force a Casa Branca ou o Congresso a tomar novos rumos
de ação, e pode vir a ser, mesmo, significativo ponto de contenção
durante o próximo ciclo eleitoral presidencial.
Mas tanto o governo Obama quanto o governo George W. Bush são
autores de “resgates” de bancos e banqueiros. A falta de representação,
que os protestos evidenciaram, aplica-se aos dois partidos. Nessas
circunstâncias, o clamor dos espanhóis por “democracia real, já” soa ao
mesmo tempo, urgente e desafiador.
Se observados em conjunto, esses diferentes acampamentos de protesto
– do Cairo a Atenas, Madison, Telavive, Madrid e, agora, New York –
manifestam uma insatisfação com as estruturas da representação
política. O que oferecem, como alternativa? O que é a “democracia real”
que tantos propõem?
As pistas mais claras estão na própria organização interna dos
movimentos – especificamente, no modo como os acampamentos oferecem
novas práticas democráticas. Esses movimentos desenvolveram-se segundo
o que designamos como “uma forma multitudinária” e são caracterizados
por frequentes assembleias e estruturas participativas para construir e
tomar decisões. (E vale a pena observar que, quanto a isso,
Occupy Wall Street
e várias das demais manifestações também têm raízes nos movimentos de
protesto antiglobalização que se estenderam, no mínimo, de Seattle em
1999 a Gênova em 2001.)
Muito se tem dito sobre mídias sociais como
Facebook e
Twitter,
sempre usados nos acampamentos. Esses instrumentos de rede,
evidentemente, não criam os movimentos, mas são ferramentas úteis,
porque, em vários sentidos, correspondem à estrutura dos experimentos
horizontais e democráticos dos próprios movimentos. Em outras palavras,
o
Twitter é útil, não porque divulga eventos, mas porque
reúne as ideias de uma grande assembleia, para uma específica decisão,
em tempo real.
Não espere que os acampamentos, então, desenvolvam líderes ou
representantes políticos. Nenhum Martin Luther King, Jr. vai emergir
das ocupações de Wall Street e outras. Para melhor ou para o pior – e
certamente estamos entre aqueles que consideram
OccupyWallStreet
um assunto promissor – este ciclo emergente de movimentos vai se
expressar através de estruturas de participação horizontal, sem
representantes específicos. Tais experiências de organização
democrática em pequena escala teria que se desenvolver muito mais, é
claro, antes de se poder elaborar modelos eficazes para uma alternativa
social, mas os ocupantes expressam poderosamente sua aspiração por uma
“democracia real”.
Enfrentando a crise (financeira do capitalismo) e vendo claramente a
forma como ela está sendo gerenciada pelo sistema político atual, os
jovens que participam dos vários acampamentos fazem, e com inesperada
maturidade, a desafiadora pergunta: “Se a democracia – ou seja, a
democracia que temos hoje – está atônita sob os golpes da crise
econômica e é impotente para fazer valer a vontade e os interesses da
multidão, não seria a hora , talvez, de considerar que esta forma de
democracia seja obsoleta?”.
Se as forças políticas geradas pelo poder da riqueza e das finanças
passaram a defender interesses supostamente democráticos das atuais
Constituições, incluindo a dos EUA, não é possível e mesmo necessário,
hoje, propor e construir novos valores constitucionais que possam abrir
avenidas e retomar o processo de busca coletiva da felicidade? Tal
raciocínio e tais demandas, já vivamente explicitados nos movimentos
idênticos que acontecem na Europa e na África Mediterrânea que se
implantaram pelos EUA a partir de Wall Street, mostram a necessidade de
um novo processo Constituinte e democrático.
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