Da Agência Carta Maior
Militantes de movimentos sociais foram impedidos, nesta terça-feira
(4), de entrar no Senado pela segurança da Casa, onde participariam de
audiência pública, na Comissão de Direitos Humanos, sobre
criminalização dos movimentos sociais. O acesso da maior parte dos
convidados só foi possível depois da intervenção pessoal do presidente
da Comissão, Paulo Paim (PT-RS).
A sessão, que estava marcada
para as 9h, foi aberta pelo senador por volta das 9h10, com a comissão
praticamente vazio. Cerca de dez minutos depois, ele soube, por meio de
assessores, que os convidados estavam tendo problemas com seguranças.
“Quando entram os gravatinhas, os cartolas, não tem esse problema. Já
fiz audiência pública com o Ministério Público, com juízes, e isso não
aconteceu”, afirmou.
O secretário-geral da Nova Central Sindical
dos Trabalhadores, Moacyr Roberto Tesch, que acabara de chegar à
Comissão, confirmou a informação dada pelos assessores de Paim. “Está
tendo uma certa dificuldade de acesso. Tivemos de passar até pela
garagegm”, disse.
Após o relato, Paim suspendeu a sessão e se
dirigiu a uma das portarias secundárias do Senado. A reportagem
testemunhou um breve diálogo de Paim com dois seguranças. Ambos
argumentaram que estavam cumprindo ordens de cima, que a Comissão não
comportaria uma caravana que eles estimavam em 200 pessoas e algumas
delas não tinham documentos. Sugeriram que Paim procurasse comandantes
da polícia do Senado.
O senador usou ramal da portaria para
falar com um destes dirigentes, reclamou de que “há sempre esse
constrangimento” contra os movimentos sociais na chegada ao Senado e
que não era correta a informação de que a Comissão não comportaria
todos os convidados. Se a sala fosse pequena, disse, seria possível
acomodá-los numa outra, ao lado. Depois disso, a entrada foi autorizada.
“Se
fossem 200 empresários, primeiro que não haveria esse problema. Mas, se
tivesse, haveria muito deputado e senador lá para ajudar”, disse Tesch,
já durante sua exposição na audiência. “O que aconteceu hoje aqui é
emblemático da situação que enfrentamentos no Brasil”, afirmou José
Maria de Almeida, diigente da central sindical Conlutas. Candidato a
presidente da República por três vezes, José Maria não tinha sido
barrado.
Durante a audiência, todos os participantes condenaram
a criminalização dos movimentos sociais. Inclusive dois representantes
do governo e um senador, Demóstenes Torres (DEM-GO), que se declarou
“conservador” e com uma visão de Estado diferente, mas um apoiador da
pressão exercida pelos movimentos. “Essa Casa é de vocês, ninguém pode
barrá-los”, disse. “Eu sou um conservador, mas estou com os senhores,
se os senhores estiverem dentro da lei.”
Demóstenes citou
algumas notícias que mostrariam atos “fora da lei” por parte dos
movimentos sociais, como, por exemplo, uma greve reente em São Paulo em
que teria havido “depredação de veículos”.
Na semana passada, um
dos maiores especialistas do mundo em movimentos sociais, o holandês
Bert Klandermans, da Universidade Livre de Amsterdan e diretor da
Sociedade Internacional de Sociologia, deu um curso intensivo na
Universidade de Brasília (UnB). Num dia em que deu uma palestra aberta,
afirmou que “quando o movimento têm violência, a mídia nunca vai falar
do conteúdo”.
Por esta razão, Rumiko Tanaka, dirigente da União
Geral dos Trabalhadores (UGT), considera que a imprensa é a principal
responsável por vender uma imagem de movimentos sociais “fora da lei”.
Segundo ela, os movimentos existem por falha em políticas públicas,
omissão da sociedade ou leis “não condizentes com a modernidade”. A
mídia, contudo, faria uma “lavagem cerebral” na sociedade. “Nós
engolimos o que a imprensa divulga sem refletir”, disse. “Com raras
exceções, ela demoniza as lideranças [dos movimentos].”
Na
audiência, a Justiça também foi acusada de contribuir para a
criminalização dos movimentos. Foi motivo de muita queixa uma conceito
jurídico que, segundo os movimentos, em se disseminado chamado
interdito proibitório, por meio do qual os movimentos,
aprioristicamente, não podem manifestações na porta de prefeituras ou
de bancos, por exemplo.
“Isso é um instrumento dos ricos para
impedir que a gente lute”, afirmou Ubiraci Dantas de Oliveira,
dirigente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB). “O Poder
Judiciário não tem visão social. Dificilmente um juiz é oriundo desses
movimentos ou é filho de trabalhador. É muito fácil despachar o
interdito proibitório”, afirmou Moacyr Roberto Tesch, secretário-geral
da Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST).
Representantes
do governo, o Ouvidor Nacional da Secretaria de Direitos Humanos, Bruno
Renato Nascimento Teixeira, e o assessor da Secretaria Geral da
Presidência Jeter Luis Gomes concordaram que tem havido criminalização
e perseguição de movimentos sociais.
Segundo o primeiro, o
diálogo com os movimentos sociais é uma prioridade nos Direitos
Humanos, e a Secretaria tenta sensibilizar o restante do governo para
isso. Mas, sem pressão sobre outros setores públicos, como a Justiça,
estados e prefeituras, fica mais difícil de resolver a situação.
Já
Luiz Gomes disse que o Brasil é um país com a sétima economia do mundo
e pertencente ao século XXI que ainda tem um pé no século XIX,
referindo-se à criminalização dos movimentos. “E isso não podemos
aceitar”, disse.
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