Da Carta Maior
É comum ouvir análises sobre a importância da internet e das redes
sociais no sucesso de eventos políticos recentes, como a eleição do
primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, e as
revoltas da primavera árabe que derrubaram ditadores na Tunísia e no
Egito.
Ainda que reconheça o papel democratizador da rede
global, o jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos criadores do site
Rebelión, contém seu entusiasmo. "As revoluções das redes sociais não
mudaram nada nos Estados Unidos e nem nos países árabes", disse ele,
com certa ironia, ao participar do 1º Encontro Mundial de Blogueiros,
nesta sexta-feira (28). "É aquela história de mudar um pouco para não
mudar nada no final", criticou.
O argumento de Serrano é que as
novas mídias não são capazes de tratar de assuntos relevantes com
profundidade e sem fragmentá-los. Seria o caso do twiter, com seus
textos telegráficos, e do youtube, cujos vídeos têm entre três e quatro
minutos, os quais perigosamente cruzariam a fronteira entre a
informação e o entretenimento. "Há um caráter primário de política em
tudo isso", afirmou.
O jornalista espanhol lembrou ainda que as
redes sociais estão sob controle de grandes empresas, em geral
norte-americanas, que podem fazer uso - e o fazem - da censura para
retirar conteúdos políticos que julguem inapropriados. "A possiblidade
de intoxicação e manipulação nas redes sociais é muito grande", apontou
Serrano, que, no entanto, disse que é possível mudar o rumo dessa
história.
Para isso, ele defendeu que as novas mídias adotem
"rigor e verdade" como seus valores, denunciem o modelo de oligopólio
que predomina no setor da comunicação mundial e invistam em uma nova
geração de jornalistas com valores humanísticos. "Precisamos incorporar
algumas coisas mesmo que não gostemos delas, porque os novos cenários
de comunicação não estarão livres de controle", concluiu.
ContrapontoO
jornalista Andrés Thomas Conteris, fundador do serviço em espanhol do
site Democracy Now!, faz uma avaliação mais positiva sobre o potencial
transformador das novas mídias. Segundo ele, que nasceu nos Estados
Unidos e possui ascendência uruguaia, veículos alternativos como o
Democracy Now! têm colaborado diretamente com movimentos alternativos
anti-sistêmicos, do Cairo a Washington.
O exemplo mais recente
seria o Occupy Wall Street, através do qual norte-americanos têm
ocupado as ruas de várias cidades norte-americanas para protestar
contra o sistema financeiro. Através da cobertura alternativa e das
mídias sociais, esse movimento, que tem seu DNA nos jovens que tomaram
a praça Tahir, no Egito, vem sendo copiado em diversos países do mundo,
como Brasil e Alemanha.
Conteris destaca algumas qualidades que
têm garantido o sucesso do Occupy Wall Street e suas variantes: há
transparência nas ações; há independência de partidos, governos,
empresas e corporações; a democracia participativa é exercida através
de assembléias gerais; as ocupações são intensas e sem prazo para
terminar; há horizontalidade, ou seja, não há chefes e hierarquia; e a
visão política possui um caráter global.
"O povo está
desempregado e perdeu sua casa, após as fraudes nos bancos. O que o
movimento diz é que somos 99% e eles são só 1%, mas, ainda assim, estão
no comando do sistema financeiro e são cúmplices dos crimes cometidos.
Nós precisamos mudar isso", afirmou o jornalista.
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