Da Tribuna do Norte
Os vereadores da Câmara Municipal de Natal (CMN) aprovaram ontem, em
primeira discussão, o empréstimo de US$ 100 milhões que a Prefeitura
pretende contrair junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID). Foram necessários mais de dez dias de paralisação dos trabalhos
legislativos em plenário para que finalmente o projeto fosse apreciado
e a pauta de votação da Casa devidamente liberada. Mesmo aprovada, a
matéria não obteve unanimidade nem entre os 14 parlamentares que se
posicionaram favoravelmente, o que deve esquentar os debates travados
hoje durante a segunda e definitiva votação. Muitos deles demonstraram
desconfiança, por exemplo, quanto à distribuição e aplicabilidade dos
recursos. De acordo com o detalhamento encaminhado pela Prefeitura de
Natal (PMN) apenas R$ 63,05 milhões (ou US$ 36,02 milhões se
considerada a cotação do dólar ontem que era de R$ 1,75) dos US$ 100
milhões têm destinação específica. Dessa forma, a PMN contará com uma
sobra de R$ 111,9 milhões (US$ 63,98 milhões) que possivelmente podem
ser aplicados sem maiores amarras burocráticas.
"Não
podemos dar um cheque em branco, mas precisamos ao mesmo tempo garantir
os recursos necessários para as obras da Copa", enfatizou o vereador
Júlio Protásio (PSB). Ele foi autor de uma emenda, rejeitada em
plenário, que reduzia o valor do empréstimo de US$ 100 milhões para US$
50 milhões. O vereador do PSB destacou que o montante atendia
plenamente às necessidades da Prefeitura para a efetivação das obras de
mobilidade. A proposta inspirou inicialmente a simpatia dos
parlamentares, mas foi inviabilizada tanto pela veemente articulação do
líder da prefeita na CMN, vereador Enildo Alves (DEM), quanto também
pela divergência de opiniões da bancada de oposição. "O BID não aceita
a diminuição dos valores e se isso for feito o projeto pode ficar
perdido", argumentou Enildo Alves.
A Prefeitura disse à CMN
que pretende distribuir R$ 78,75 milhões milhões para pagar as
desapropriações necessárias para as obras de mobilidade; R$ 262,5 mil
para a reestruturação dos corredores de transportes coletivos; R$ 12,25
milhões para estruturação do bairro Nossa Senhora da Apresentação; R$
8,57 milhões para a macrodrenagem de Capim Macio; e R$ 10,5 milhões
para a modernização administração do projeto 'Natal, Cidade
Empreendedora'.
A bancada de oposição chamou atenção ainda para
a fragilidade e falta de discernimento da gestão Micarla de Sousa (PV)
na lida com os recursos públicos. "Ela vem aqui e na calada da noite
pede anistia para o pagamento de impostos de aproximadamente R$ 200
milhões de instituições de ensino particulares. Agora vem aqui pedir um
empréstimo. É uma falta de discernimento incrível", declarou o vereador
George Câmara (PC do B). O debate terá continuidade hoje e o governo
mantém confiança de que terá êxito mais uma vez.
Vereador alerta para limite da dívidaDe
acordo com a última resolução do Senado Federal, a quem compete
legislar privativamente sobre operações de crédito, o limite para
contratação de empréstimo é de 60% da receita corrente líquida (RCL),
excetuando-se os gastos em pessoal, custeio e investimentos. Ao mesmo
tempo, há um limite de 11,5% da mesma receita para amortizações (a
chamada capacidade de pagamento). A RCL do município, computada para
efeito da contratação do empréstimo, foi de R$ 1,12 bilhão (dado da
PMN). Já a dívida contratada e a futura somaram de R$ 511,4 milhões, o
que corresponde a 46% da RCL. Uma margem considerada apertada. "Eu temo
que esse empréstimo inviabilize investimentos necessários em saúde,
educação e assistência social, por exemplo", afirmou o vereador Raniere
Barbosa.
No que diz respeito à capacidade de pagamento a
projeção é de 7,1%, segundo dados da própria Prefeitura. Mesmo que
obtenha autorização do legislativo, o pedido de empréstimo terá ainda
que passar pelo Ministério da Fazenda, que através da Secretaria do
Tesouro Nacional (STN) fiscaliza, monitora e defere os casos,
observados os dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Os
vereadores da oposição desconfiam que a STN dê o aval face as margens
apertadas, sobretudo no que concerne à capacidade de amortização da
dívida.
Edivan diz esperar elevação da cota orçamentária O
presidente da Câmara Municipal (CMN), vereador Edivan Martins (PV),
afirmou ontem que aguarda a resposta da Prefeitura de Natal sobre o
pedido de elevação da cota orçamentária do legislativo (ou duodécimo),
que atualmente é de 4,5% da receita total do município. Ele confirmou
ter enviado o pleito em julho deste ano ao secretário de Planejamento,
da Fazenda e da Tecnologia da Informação (Sempla), Antônio Luna, e
disse estar confiante em uma resposta positiva. "Eles vão atender
porque esse pedido é constitucional, tem jurisprudência do Supremo
Tribunal Federal e estamos aguardando", disse o vereador.
Edivan
Martins quer a inserção no cálculo do duodécimo a receita oriunda dos
repasses patronais da previdência. Se atendido o pleito, este deverá
elevar o orçamento da CMN em R$ 60 mil/mês ou R$ 720 mil/ano. O STF já
respondeu positivamente a questionamento de teor similar do legislativo
municipal de São Paulo.
A resistência da Prefeitura, através da
Sempla, de atender o pedido da presidência da Câmara Municipal teria
motivado uma reação entre parte dos parlamentares, que se teriam
protelado a votação do empréstimo junto ao BID numa tentativa de
pressionar o Executivo. Vereadores ouvidos pela reportagem confirmaram
a "manobra" da CMN na tentativa de fazer valer o que diz a
jurisprudência do STF, mas Edivan negou a informação. "O adiamento da
votação se deu porque o vereador Júlio Protásio pediu vistas do projeto
e aguardou informações da Prefeitura que somente chegaram hoje
(ontem)", garantiu.
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