No Observatório da Imprensa
Apesar do esforço da imprensa brasileira, as
manifestações contra a corrupção, que pipocaram no feriado da
quarta-feira (12/10) por várias cidades do país, não chegaram a
empolgar. As fotografias nas primeiras páginas dos jornais, mostrando
jovens de classe média com o rosto pintado, estão mais próximas de uma
“balada” do que de expressar sinais de revolta.
Por outro lado, apesar do descaso inicial da imprensa americana, as
manifestações inspiradas no movimento “Ocupe Wall Street” se espalham
por muitas cidades dos Estados Unidos e se consolidam como uma revolta
das classes médias de maioria anglo-saxônica.
As declarações e imagens colhidas pelos jornalistas nas
concentrações dos americanos refletem a inconformidade com a situação
econômica do país e o fato de adotarem Wall Street como alvo traz um
foco muito claro para os protestos.
Maioria silenciosa
O que difere essencialmente os dois acontecimentos?
Primeiro, observe-se a contradição: nos Estados Unidos, onde a
imprensa claramente vem tratando com má vontade as manifestações,
apenas dando atenção a elas quando ocorreram os primeiros atos de
violência policial, os eventos se multiplicam e ganham consistência
apesar do descaso inicial da mídia.
No Brasil, desde o primeiro grito do “Cansei!”, a imprensa tenta
dar alguma credibilidade a manifestações esparsas contra a corrupção,
sem qualquer resultado concreto – falta povo para transformar as
passeatas em fato social.
Nem mesmo declarações oportunistas de líderes religiosos – como
aconteceu durante a missa festiva na basílica de Aparecida – funciona
como liga: a própria igreja católica, afetada por denúncias de
pedofilia nunca satisfatoriamente respondidas, carece de autoridade
para levantar a voz contra corruptos e corruptores.
A razão para essas diferenças talvez esteja na natureza dos fatos
que oficialmente motivam as mobilizações. Os movimentos de massa são
sempre impulsionados por uma percepção geral de mal-estar, mas é
preciso que exista um ponto focal para tirar as pessoas de seu
imobilismo.
Nos Estados Unidos, é clara a percepção de que o mal-estar está
relacionado ao sistema econômico, cujo epicentro é a especulação
financeira. Wall Street simboliza os responsáveis pelo mal percebido
pela maioria silenciosa, e a revolta tem um claro viés de apoio ao
esforço do governo Obama de colocar algum controle no cassino.
Quem atira a primeira pedra?
No Brasil, a dificuldade de se identificar um alvo para os
protestos começa pela percepção de que a corrupção não pode ser
localizada ou personalizada, tal sua presença nas instituições.
Apesar do esforço da imprensa em apontar para Brasília, o cidadão
sabe que a corrupção está presente no fiscal que se apropria de parte
dos ganhos do feirante, no policial que vende aos condomínios como
serviço privado a proteção que é pago para fazer como servidor público,
e em muitos outros aspectos da vida civil.
Por outro lado, os cidadãos sabem, ou desconfiam, que a corrupção
domina as relações políticas não apenas na capital federal, mas também
nos estados e municípios, apesar de esses eventos raramente ganharem
manchetes de jornal.
Ao contrário dos Estados Unidos, a situação econômica no Brasil
produz uma sensação de bem-estar e otimismo que desestimula desejos de
mudança radical. O brasileiro médio sente-se claramente revoltado com
os sinais de corrupção e impunidade, mas sabe que, ao aderir a um
movimento coletivo, perde a individualidade e passa a ser usado como
massa de manobra das lideranças.
E quem são os líderes das passeatas? Por enquanto, ninguém em quem se possa confiar.
O Judiciário, minado pela impunidade, pelos privilégios e pela
insistência de seus representantes em rejeitar o controle externo, há
muito deixou de ser uma esperança de correção. No Parlamento, o sistema
de escambo transforma os supostos representantes dos eleitores em
suspeitos preferenciais. E o Executivo, apesar dos últimos esforços
destacados pela imprensa, ainda não demonstrou que deseja de fato
romper o círculo de dependência imposto pelas alianças partidárias.
Assim, restaria à imprensa a missão de tomar a tocha da moralidade
pública e catalisar os protestos em busca de mudanças reais no sistema
político-institucional. Mas a mídia é parte e beneficiária do sistema.
Se eventualmente se coloca na oposição, é porque faz escolhas
ideológicas que a distanciam circunstancialmente do poder político.
Além disso, apesar de algumas pesquisas formais apontarem a preservação
do núcleo de credibilidade da instituição imprensa, ela está longe de
representar os interesses difusos da sociedade.
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