Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Culpado! Sentenciado pelo tribunal de exceção da mídia



Não me senti obrigado a defender o ministro Orlando Silva por ser filiado ao PC do B nem membro de seu comitê municipal. Não me senti obrigado a defendê-lo a priori. Nunca tive simpatia por ele. Somente uma vez estive com o ministro em um jantar do partido em 2009, ao contrário de companheiros nossos aqui em Natal que tem um relacionamento mais próximo a ele.
Mesmo sendo do seu partido, nem antecipadamente poderia me por em sua defesa. Mesmo sabendo que a Veja é acostumada a publicar denúncias sem provas - provas que nunca são apresentadas - e de, por isso mesmo, saber que Veja mente e que não é possível crer no que publica de antemão. Nada disso me faria defender o ministro. Não defendo o governo e não faço defesas de ninguém de forma antecipada.

O que me levou à defesa do ministro foi constatar, horrorizado, que ele foi acusado, julgado e condenado pelo tribunal de exceção da imprensa e da oposição - e consequentemente na opinião pública - sem que qualquer prova ou indício, por mais fraco que fosse, tivesse sido apresentado. O acusador, que recusou-se a falar com a Polícia Federal antes de se encontrar com a oposição, inventando que estava doente, tem provas contra si de ter desviado milhões de reais dos cofres públicos. Sequer uma gravação contra o ministro ele conseguiu apresentar.

Negro, nordestino e comunista, Orlando Silva é culpado. Pode não ter recebido dinheiro na garagem - então será culpado por ter comprado um terreno de R$ 300 mil. Pode não ser culpado de ter comprado o terreno por R$ 300 mil - então será culpado por comprar um terreno mais barato que o lote ao lado. Pode não ser culpado por isso, mas será porque comprou um terreno desvalorizado num lote ruim. O que importa é que o ministro é culpado e é preciso sustentar isso, com ou sem provas. O ministro é culpado porque o tribunal determinou isso, com ou sem provas. No Brasil, através da imprensa, vivemos um julgamento medieval. Orlando será linchado em praça pública.

Fiquei horrorizado em constatar que pessoas inteligentes - mal-informadas ou mal-intencionadas - publicaram textos, fizeram discursos, corroborando com o julgamento sem júri, a condenação sem prova e sem direito ao contraditório. O ministro é presumivelmente culpado. Fiquei chocado por ver gente que vive histórias impublicáveis de relacionamentos escusos com políticos posando de paladinos da moral e da ética - atirando as primeiras e mais pesadas pedras contra Orlando Silva. O teatro está armado e os atores precisam se esforçar para cumprir a sentença que o tribunal determinou de antemão: culpado.

Pintaram na testa de Orlando Silva a pecha de culpado. Ele é culpado. Como nos dias da Inquisição, nem adianta levantar a voz contra a injustiça: declarado culpado, só lhe resta o patíbulo. Mesmo que nenhuma prova seja apresentada. Não é preciso: culpado é culpado.

A julgar pelo que foi publicado na imprensa hoje, a execução da sentença de culpado já foi definida. O governo já decidiu aceitar a culpa não comprovada de Orlando Silva. Como nos anos mais negros de nossa história, a força de um tribunal de exceção, que luta e argumenta para fundamentar a sentença acertada a priori, se manifesta. O Brasil do século XXI aceita se comportar como uma nação medieval.

Um governo que se render ao linchamento público de um aliado, que aceitar o entregar às feras, sem que qualquer indício ou prova mais ou menos robusta tenha sido apresentada, não merece ser chamado de avançado, progressista ou de esquerda. É janista. Medieval. Não representa a luta por mais justiça, paz, democracia do povo brasileiro. Não representa esse povo. Aceita, por força da conveniência, a sentença decretada na mídia. Justiça não se faz com base em conveniência nem na força da opinião pública. Justiça é outra coisa. Mas a mídia, nosso tribunal de exceção, faz culpado quem foi acusado. A ele resta a forca. Governo forte é o que se preserva da injustiça.

Comentários

Postagens mais visitadas