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| "Eu preciso do meu pai", diz o cartaz. |
Da Carta Capital
As escolas de Birmingham, maior cidade do estado norte-americano do
Alabama, amanheceram estranhamente vazias na quarta-feira 12. Dos 450
alunos de origem latina matriculados – a grande maioria com raízes no
México –, mais de 200 não apareceram. A situação se repetiu em todo o
estado. Só no condado de Shelby, mais de 800 estudantes hispânicos
faltaram às aulas neste dia, de um total de 1.783 ausências.
Muitos alunos boicotaram as aulas em protesto à lei HB 56,
considerada a legislação anti-imigração mais rígida de todo o país.
Outros permaneceram em casa por medo de comprometer suas famílias,
imigrantes ilegais nos Estados Unidos. O clima de terror é
compreensível: a HB 56 estabelece que as escolas deverão encaminhar
anualmente ao governo estadual dados sobre a quantidade de residentes
ilegais matriculados no sistema de ensino e a porcentagem de jovens
que, apesar de cidadãos norte-americanos, têm pais em situação
irregular.
Apesar de o departamento de educação ter reiterado que não haverá
qualquer repasse de informação acerca do status imigratório para
identificação dos ilegais e que os dados servirão apenas para
estatísticas, impera um ambiente de desconfiança entre os latinos. Os
demais artigos da lei, como a obrigatoriedade de um imigrante carregar
consigo documentos que atestem sua residência legal e a possibilidade
de prisão sem direito a fiança daqueles que não consigam comprová-la,
afugentaram do Alabama a população proveniente de países
latinoamericanos. Um êxodo que, dizem os críticos da HB 56, já começa
também a ser sentido na economia estadual.
“As colheitas de tomate e batatas começaram a apodrecer. Os
agricultores do estado não têm trabalhadores suficientes e já dizem que
terão dificuldades com a safra de 2012, uma vez que estão perdendo
investimentos feitos neste ano”, afirma em entrevista por telefone a
CartaCapital Victor Spezzini, organizador comunitário da Coalizão de
Interesses Hispânicos do Alabama (¡Hica!, em inglês). Em Cullman, por
exemplo, o jornal Montgomery Advertiser relata a história do agricultor
Casey Smith, que costumava contratar diariamente 25 trabalhadores para
cultivar batatas doces. Em 29 de setembro, um dia depois da entrada em
vigor da lei, apenas cinco apareceram para o serviço
O governo estadual, comandado pelos republicanos, defende que a
atual fuga de mão-de-obra será logo preenchida por cidadãos
norte-americanos, o que amenizará os efeitos da legislação. Spezzini,
entretanto, mostra-se cético frente ao argumento. “Em tempos de crise
pode até ser que os norte-americanos aceitem trabalhar pelos salários
dos hispânicos, mas duvido que aceitem isso por tempo indeterminado”.
O ¡Hica! zela, por meio de assistência jurídica, pelos interesses da
comunidade latino-americana no Alabama. Desde que a juíza federal
Sharon Lovelace Blackburn julgou procedentes a maioria dos pontos da HB
56, que havia sido aprovada em junho pelo legislativo e sancionada pelo
governador Robert Bentley, a organização se empenha, junto a outros
grupos de defesa dos direitos dos imigrantes, a contestar a legislação
nas cortes norte-americanas. O mesmo faz o Departamento de Estado do
governo de Barack Obama, que vê na medida ingerência sobre assuntos de
responsabilidade exclusiva da esfera federal. O conflito judicial já
mostrou algum resultado. Na sexta-feira 23 de setembro, uma corte de
apelações bloqueou a parte da lei que criminaliza os imigrantes sem
papéis e o artigo que prevê a obrigatoriedade das escolas repassaram ao
executivo estadual as estatísticas sobre a situação imigratória de seus
alunos. Trata-se do mesmo movimento empreendido com sucesso pelo
Departamento de Estado federal contra iniciativas semelhantes no
Arizona e na Geórgia. Como a decisão é provisória, o embate deve se
arrastar pelas instâncias superiores da Justiça dos Estados Unidos e só
deve ser resolvido pela Suprema Corte.
A decisão da sexta-feira 23 de setembro, que reverteu parcialmente o caráter
anti-imigração da legislação estadual, deu um certo alívio à comunidade
hispânica do Alabama. Ainda assim, a manutenção da permissão à polícia
de solicitar a qualquer cidadão “suspeito” seus papéis de residência e
a consciência de que o desfecho do conflito é imprevisível (e ainda
está longe de se resolver) mantiveram o medo entre os
latino-americanos. A parte mais perversa desse cenário, que segundo as
organizações como o ¡Hica! reascendeu o racismo legitimado pelos
estados sulistas durante a primeira metade de século XX, centra-se no
temor de muitos pais em se verem separados dos familiares.
A comunidade de imigrantes no estado é formada por pessoas que
vieram de países como o México há anos e tiveram filhos nos Estados
Unidos – e, portanto, possuem a cidadania americana. Desde que a lei
passou a valer, famílias buscam a sede do ¡Hica! em Birmingham todos os
dias a procura de auxílio para prevenir-se de processos de deportação.
Elas assinam um documento chamado de Carta de Poder Notoriado, no qual
os pais indicam guardiões provisórios para seus filhos – como amigos e
vizinhos – caso sejam presos e expulsos dos Estados Unidos. “A pessoa
apontada como guardiã saberá se deve enviar as crianças de volta ao
México, por exemplo, ou se as manterá sob seus cuidados nos Estados
Unidos. De todas as formas, esse documento evita que os menores sejam
enviados para abrigos do estado. Mesmo que não reverta a situação de
deportação, dá um pouco de alívio aos pais, um pouco de controle”, diz
Spezzini.
O organizador comunitário do ¡Hica! lembra que a organização já
oferecia o serviço de Carta de Poder Notoriado, visto que mesmo antes
da HB 56 os imigrantes ilegais sempre conviveram com o perigo de
prisões e deportações. “Acontece que antes vinham famílias nos procurar
uma ou duas vezes por mês. Agora todos os dias lidamos com esses
pedidos”.
Em relação às escolas, a HB 56 despertou duras críticas da Federação
Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês). A entidade soltou
uma nota afirmando que os educadores do Alabama deveriam ser guardiões
das crianças, e não guardas. “Muitos professores estão desolados pelo
que está acontecendo com seus alunos. Uma professora de Albertville
perdeu praticamente todos os seus estudantes hispânicos, muitos dos
mais esforçados de sua classe”, afirmou em entrevista a CartaCapital Vi
Parramore, presidente da AFT no condado de Jefferson. Ela relatou casos
de pais que decidiram deixar o estado por medo e cancelaram as
matrículas de seus filhos. “Isso é horrível porque condena muitos
jovens a abandonar a educação formal e a possibilidade de melhorarem de
vida. Mesmo os que continuam matriculados, mas faltam por medo nas
aulas, são prejudicados pela queda de desempenho”.
Presidente da AFT em Birmingham, Richard Franklin aponta também o
prejuízo que as próprias instituições de ensino terão com o êxodo de
estudantes. “Com a perda de frequência, as escolas perdem também fundos
públicos, já que o cálculo é feito com base no número de matrículas”,
disse Franklin a CartaCapital. Além do mais, o educador afirma que será
criado um ambiente de segregação entre os alunos. “Uma criança olha
para um colega e não pode vê-lo como um filho de imigrante ilegal. Ela
tem de vê-lo como um amigo antes de tudo”.
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