Por Fausto Rodrigues de Lima
Promotor de Justiça do Distrito Federal
Na Folha de São Paulo
Para gastar todo o dinheiro do marido e conseguir sua compreensão, a
mulher brasileira precisa lhe conceder sexo. O ensinamento de uma
campanha da lingerie Hope, protagonizada por Gisele Bündchen, causou
justa indignação a ponto de a Secretaria de Políticas para as Mulheres
pedir sua suspensão.
Essa e outras manifestações sexistas escamoteiam faceta pouca
explorada: o homem também é discriminado. Ora, para a campanha
referida, o marido ideal precisa ser o provedor; caso contrário, não
pode ter uma mulher linda e disponível para o sexo. Como um cão no cio,
necessita de sexo a todo momento e a todo custo. Não deve se importar
com a satisfação da parceira; basta que ela finja prazer.
Se analisarmos comerciais dirigidos aos homens, veremos que, nessas
peças, eles são tratados como crianças abobalhadas. Os de cerveja os
perfilam como tipos pouco inteligentes, fazendo (e rindo de) piadas
idiotas, e com um só objetivo na vida: sexo. Um recente comercial da
Volkswagen mostra um pai com vergonha do filho pois o menino, além de
não surfar ou tocar guitarra, ainda não "pegou" uma garota.
Como todo projeto de dominação e preconceito, a discriminação de
gênero, embora baseada numa suposta inferioridade feminina, atinge a
todos, porque cria regras "naturais" para o comportamento dessa ou
daquela pessoa, baseando-se apenas em seu sexo. Adeus, individualidade
e diversidade.
No mundo que se convencionou chamar masculino, não há lugar para
poesia, para emoções. Sensibilidade é uma capacidade indesejável,
ligada a tudo o que é considerado inferior, ou seja, ao feminino.
A educação dirigida aos meninos é completamente diferenciada. Bonecas
são brinquedos educativos para as futuras mamães, mas causam horror se
manipuladas por meninos. O "instinto materno" é aprendido desde a
infância, mas não se ensina o paterno (não à toa, se considera tão
natural as mulheres ficarem com os filhos numa separação).
Homem não chora, é autossuficiente, não demonstra fragilidade e não
leva desaforo pra casa. Se ele se irrita, agride pessoas, deve ser
compreendido, porque, afinal, é apenas um… homem, infantilizado pela
família e pela sociedade. Enquanto mulheres dividem com outras medos e
frustrações, o homem se fecha. Do ambiente familiar, repleto de
emocionalidades, resta a ele fugir. O bar e o álcool são o refúgio
viril que a sociedade lhe dá.
É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação
de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer
"piadas inocentes".
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover
ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for
insuficiente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas
não pensamos nisso 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também
o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.
Por isso, pedimos ao Conar que suspenda a propaganda da Hope e outras
ridículas, não só por ofenderem nossas mães, filhas e esposas, mas por
nos agredirem profundamente enquanto homens.
Muito bom! Um mundo com mulheres mais livres para serem o que quiserem é também para os homens o serem..
ResponderExcluirÓTIMO!
ResponderExcluirnunca é tarde para começar a pensar e refletir!
a sociedade brasileira em geral é muito acomodada...acha tudo engraçadinho, mas essas piadas como o promotor bem disse "reforçam estereótipos e criam outros".
Não só a suspensão é necessária como o boicote à marca.