Por Marcelo Semer
Do Blog Sem Juízo
Não sou um admirador ferrenho do rock, mas embalado pela companhia
estimulante dos amigos das redes sociais, acabei acompanhando os
embalos de sábado à noite no sofá, assistindo ao Rock in Rio pela
televisão dias seguidos.
Entre uma música e outra, e muitas
tuitadas, pude acompanhar o incansável espetáculo das prestigiadas
entrevistas da área VIP, mantida pela organização do evento.
As apresentadoras da TV incensavam o lugar: vamos pra lá que tem ar condicionado e canapés para todos.
Todos,
no caso, é uma coleção de artistas e apresentadores da própria
televisão que transmitia o evento –e sabe-se lá quantas autoridades.
Tudo
bem, ao final, muitos comentaram o “dia de rock, bebê”, da Cristiane
Torloni, ou a expansiva entrevista de Willian Bonner, a quem nos
acostumamos a ver taciturno no Jornal Nacional.
Mas o desfile de
subcelebridades que tinham pouco a dizer sobre o evento (além de
explicar como deixaram seus filhos em casa num dia e o trouxeram em
outro) marcou a transmissão com um quê de revista Caras –aquela que
leva seus ricos e famosos para ilhas e castelos.
Afinal de contas, a exclusividade é tudo.
Para
quem tanto incensa a área VIP, as pessoas “realmente importantes”, ou,
no caso a si mesma, quando se dirige aos próprios atores, fica estranho
o discurso moralista que se verá nas edições dos telejornais dos dias
seguintes: o respeito à ética e aos postulados republicanos, a
indignação com os privilégios, o apelo ao fim do patrimonialismo.
As
relações de privilégios (leis privadas, em sua concepção etimológica,
que servem a poucos) são altamente nocivas na esfera pública, rompendo
a noção de igualdade que a lei deve assegurar.
Mas não nos enganemos: elas só existem no espaço público, porque são assim tão prestigiadas no privado.
A
ânsia de levar vantagem, de ter exclusividade, de se diferenciar dos
demais está na raiz dos privilégios que o poder distribui –com regras,
cargos e verbas selecionadas a dedo a pessoas que sejam “realmente
importantes”.
A corrupção é mais filha da desigualdade do que nossa vã filosofia faz supor.
Ou, como diria, Antoine de Saint-Exupéry: Você se torna responsável por tudo aquilo que cativas...
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