Por Natalia Viana
Na Pública
O clima em Ellingham Hall, o casarão georgiano onde Julian Assange
se encontra em prisão domiciliar no interior da Inglaterra, foi
descrito como “triste” nos últimos dias. Por conta de uma cadeia de
eventos inesperados, a organização decidiu publicar nesta quinta-feira
os 251.287 documentos das embaixadas americanas provenientes de todo o
mundo.
Foi um final apressado para o maior projeto já conduzido pela
organização e um dos vazamentos de documentos mais significativos da
história do jornalismo.
Ao contrário do que ocorreu nas divulgações anteriores dos
documentos, quando estes eram checados e seguiam um cronograma de
publicação controlado pela organização, metade desses telegramas contém
o nome de todos os envolvidos nos comunicados das embaixadas, incluindo
aqueles que o Wikileaks preferia proteger para evitar que sofressem
eventuais represálias.
Os telegramas começaram a ser publicados no final do ano passado com
a parceria de dezenas de veículos internacionais, que ajudavam a
eliminar os nomes dos que poderiam ter sua segurança ameaçada pelos
documentos vazados. Os parceiros se comprometiam a ler todos os
documentos antes de submetê-los à publicação pelo site do WikiLeaks, o
que ocorria simultaneamente à publicação dos órgãos de imprensa.
Eram os parceiros que avisavam à organização se haviam retirados nomes ou se o documento poderia ser publicado na íntegra.
O complicado sistema de publicação cooperativa, que depois de seis
meses envolvia mais de 50 veículos de todo o mundo, foi uma novidade
para o jornalismo internacional e para o próprio WikiLeaks. A
organização garante que ninguém jamais sofreu violência por ter tudo
seu nome exposto pelo site, embora tenha sido acusada de colocar vidas
em risco por ter publicado documentos que traziam o nome de informantes
do exército americano no Iraque.
Eu mesma fui treinada para lidar com o programa e explicar
cuidadosamente para os jornais parceiros – do Brasil e de outros países
da América Latina – a importância de cuidar para que os nomes de
defensores de direitos humanos fossem retirados. As embaixadas
americanas costumam ouvir políticos, empresários, embaixadores
estrangeiros, jornalistas, além de ativistas de direitos humanos. O
WikiLeaks sempre manteve uma política de omitir apenas os nomes dos
últimos.
“Queremos proteger aquelas pessoas que vão até a embaixada americana
para denunciar abusos e violações de direitos, em especial em países
com ditaduras. São pessoas que não têm como se defender e que podem
sofrer ameaças à sua integridade física ou de processos legais injustos
por terem seus nomes expostos. Queremos proteger os que não podem se
proteger sozinhos”, explicou Julian quando recebi os documentos
brasileiros.
No Brasil
Foi a mesma orientação que eu passei para os jornais Folha de S
Paulo e Globo, ainda em dezembro do ano passado. Tratava-se, claro, de
uma orientação que teria mais importância em regimes opressivos e
ditatoriais, onde a embaixada americana serve de fato como interlocutor
para ativistas. No caso do Brasil, todos concordamos em retirar apenas
um nome, de um membro de uma respeitada organização de direitos
humanos. Todos os outros nomes – assim como os de muitos outros
informantes de embaixadas de todo o mundo – foram publicados.
Foi assim que o público brasileiro pôde saber, por exemplo, que o
ex-senador Heráclito Fortes era informante freqüente da embaixada em
reportagem publicada pelo Globo, pela Folha e por mim em janeiro deste
ano; que o assessor do ex-ministro Palocci, Sergio Bath, conversou
diversas vezes com a embaixada durante a crise de 2006 e que o próprio
ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, era tratado como uma fonte a ser
“estritamente protegida”.
Todos esses nomes já estavam publicados desde o começo do ano. Em
julho, todos os documentos referentes ao Brasil foram publicados pelo
WikiLeaks.
Os lances finais
O WikiLeaks decidiu publicar todos os documentos agora porque o
jornal alemão Freitag publicou uma reportagem na semana passada
anunciando ter acessado o conteúdo integral de todos os documentos a
partir de um arquivo criptografado disponível na internet. Segundo a
revista alemã Der Spiegel, o ex-associado de Julian Assange, Daniel
Domscheit-Berg, teria ajudado a Freitag a encontrar esse arquivo para
provar que o site do Wikileaks não era tão confiável e seguro quanto
Assange dizia.
Desde que saiu da organização, em meados do ano passado, Daniel tem
sido o maior crítico e maior inimigo de Assange. Ele chegou a publicar
um livro com acusações pessoais contra o ex-sócio, e fundou outra
organização para concorrer com o WikiLeaks – o OpenLeaks.
O fato é que o arquivo se tornou público graças a uma cadeia de erros de diversos atores; uma espécie de “falha colaborativa”.
Assange criou uma senha para o arquivo dos documentos que ele
colocou em um servidor, explica a Der Spiegel. A senha se completava
com uma palavra que foi entregue aos cinco veículos que fizeram a
parceria inicial com o WikiLeaks: New York Times, El Pais, Guardian, Le
Monde e a própria Spiegel.
Em algum momento, ainda no início do projeto Cablegate, esse arquivo foi colocado na rede
torrent
para proteger os dados e fazer com que fosse impossível retirá-los da
internet. Não está claro quem colocou o arquivo na internet, mas ele
estava escondido dentro de um subdiretório oculto e criptografado –
apenas quem tivesse a senha poderia acessá-lo.
Em janeiro deste ano, no entanto, os jornalistas David Leigh e Luke Harding publicaram a senha utilizada por eles no livro “
WikiLeaks:
dentro da guerra de Julian Assange. Ainda assim, o segredo se manteve durante mais de seis meses, até a publicação do jornal alemão.
O WikiLeaks reagiu chamando o Guardian de “negligente” e publicou um
comentário irônico sobre o livro pelo twitter: “A única coisa que o
jornal tinha que soletrar corretamente no livro era justamente a
senha”. O Guardian, como os outros parceiros internacionais, havia
assinado um termo de confidencialidade que proibia a revelação de
detalhes de segurança da operação. Como a senha.
Em editorial, o Guardian alegou que o livro continha a senha, mas
nenhuma indicação sobre onde encontrar o arquivo: “Era um pedaço de
informação sem qualquer sentido a não ser para quem criou o arquivo”,
alegou.
Desde a semana passada, porém, começaram a circular informações na internet sobre como ligar as duas coisas.
Grupos de transparência hacker que já acusavam o WikiLeaks de
“conservadorismo” por retirar os nomes dos ativistas em risco decidiram
postar todos os documentos. “Em breve vamos disponibilizar todos os
telegramas, na íntegra – não podemos defender a liberdade de informação
apenas quando achamos conveniente”, escreveu a comunidade hacker
Anapnea na noite da quarta-feira.
Os documentos começaram a circular na Internet e, na noite da
quinta-feira passada, o Wikileaks decidiu publicar todo o conteúdo dos
telegramas no seu site – 15.652 documentos secretos, 101.748
confidenciais e 133.887 não classificados – provenientes de 247
embaixadas americanas em todo o mundo. Um material e tanto para
jornalistas investigativos, pesquisadores, historiadores e ativistas.
Na sexta-feira, em um comunicado conjunto, os primeiros parceiros do
WikiLeaks – o Guardian, o El Pais, o Der Spiegel e o Le Monde –
“deploraram” a publicação dos documentos pelo site, afirmando que “pode
colocar vidas em risco”. “Não podemos defender a publicação
desnecessária do conjunto inteiro de documentos – estamos todos unidos,
na verdade, ao condená-la”, diz o comunicado. “Nossos acordos
anteriores com o WikiLeaks eram baseados na premissa de que só
publicaríamos telegramas que tenham sido sujeitos a um minucioso
processo conjunto de edição e revisão. Continuaremos a defender a nossa
postura anterior”.
Votação
Antes de divulgar os documentos na integra, o Wikileaks lançou pelo
twitter uma enquete sobre se deveriam ou não ocultar nomes. A votação
pelo sim, segundo a organização, foi superior à negativa na proporção
de 100 para 1.
Esse pode ser um indício de que uma postura mais radical pode ser
adotada daqui pra frente pela organização – uma espécie de retorno à
sua origem. Ou apenas o reconhecimento de que o desfecho melancólico de
uma das mais inovadoras iniciativas de aliar tecnologia ao jornalismo
se deve, simplesmente, a falhas e paixões humanas.
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