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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Tottenham é aqui

Por Laurindo Lalo Leal Filho

Lentes de contato coloridas e alisadores de cabelo estão entre os produtos preferidos das meninas de 9 a 15 anos que percorrem a Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo, entrando nas lojas, pegando esses produtos e saindo sem pagar.

Buscam padrões de beleza convencionalmente estabelecidos e, para isso, arriscam-se a estar sempre às voltas com a polícia. Mas não medem esforços para conseguir celulares cor-de-rosa, casacos coloridos e outros acessórios.
Lembram os recentes saques às lojas de Londres. A intensidade e a violência é muito menor, mas a motivação assemelha-se. Em ambos os casos, a ambição é o consumo de bens identificados com a projeção do status social.

As semelhanças não param aí. Em São Paulo, como em Londres, os serviços públicos de apoio e assistência aos jovens estão sendo dizimados pela política do “Estado mínimo”.

Em Tottenham, bairro ao norte da capital britânica, o orçamento social foi cortado pela sub-prefeitura em 75% provocando o fechamento de 8 dos 13 centros de lazer e atendimento à juventude (1).

Em São Paulo foram fechados 15 centros de referência especializados em receber jovens vindos das ruas (2). Sem falar no amplo déficit de equipamentos públicos de lazer, cultura e esportes existente na cidade.

A questão como se vê é global. Combina o desmonte neoliberal do Estado com a massificação e a homogeneização dos padrões de consumo. Não é um fenômeno recente. Ele vem sendo fermentado há algumas décadas. Recentes são as reações aqui exemplificadas.

A combinação é perversa. De um lado, retiram-se as oportunidades de lazer, educação e emprego de amplos setores da juventude e, de outro, nivelam-se para toda a sociedade os mesmos padrões sedutores de consumo. Como se a possibilidade de acesso a esses bens fosse igualitária.

Em artigo publicado bem antes dos distúrbios em Londres, o historiador britânico Timothy Clark já chamava a atenção para uma “assustadora realidade” representada no fato de que “nunca antes os miseráveis da terra existiram em tal situação híbrida de perplexidade e fúria, com as imagens de consumidores satisfeitos despejadas todas as noites pela televisão à platéia de seus novos servos endividados, em quartos alugados a preços escorchantes”(3).

No Brasil as imagens de “consumidores satisfeitos” chegam através da TV a 95% dos domicílios, nivelando hábitos e aspirações. A tensão que isso provoca nos menos favorecidos tem sido atenuada nos últimos anos com a melhoria da distribuição de renda em todo o pais.

Fator que em São Paulo tem eficácia diminuída devido às políticas restritivas aos serviços públicos implantadas pelos governos estadual e municipal. Surgem então as meninas vindas das bordas distantes da cidade em busca das lentes de contato coloridas. A Vila Mariana para elas é um parque de diversões.


Nesse aspecto a situação em Tottenham é diferente. Trata-se de um bairro pobre para os padrões britânicos e os revoltosos moram lá mesmo. Quantos não são até vizinhos das lojas atacadas?

Diferença significativa mas não suficiente para apagar os traços comuns de exaltação ao consumo e da impossibilidade de realizá-lo existentes nas duas regiões.

Ao explicar o “fetiche da mercadoria” Marx já apontava como ela, aos olhos do mundo, ganhava vida própria, obscurecendo o valor produzido pelo trabalho nela contido.

As técnicas científicas de propaganda e marketing atuais levaram a fetichização das mercadorias a níveis antes nunca vistos. Não são mais apenas úteis, são amadas, como se vida própria tivessem.

O valor simbólico por elas hoje adquirido é resultado da combinação das técnicas de manipulação da indústria publicitária com a sofisticação cada vez maior dos meios de difusão de sons, imagens, ideais e valores.

A violência dos rebeldes de Londres e a persistência ágil das meninas de São Paulo são o resultado dessa convergência. Sinais do início de um processo cujos desdobramentos são imprevisíveis.

A certeza única é que elas se perpetuarão, na medida em que a necessidade de reprodução acelerada do capital permanecer como o motor central das sociedades modernas (ou pós).

1. Ver “Distúrbios em Londres: os limites da linha dura

2. “Prefeitura fechou 15 centros de referência” em Folha de S.Paulo, 28/8/2011, pág. C3.

3. Clark, T.J. “O estado do espetáculo” em Salzstein, Sônia; Modernismos, Cosac Naify, São Paulo, 2007

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.

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