Mães
de Maio e outros ativistas dos Direitos Humanos têm se mobilizado em
torno da gravidade da situação em que se encontra Márcia Honorato. O
poder público já foi comunicado e, por meio dos nossos representantes
no Congresso, temos solicitado providências:
Nota de apoio à companheira Márcia Honorato, ameaçada de morte por policiais militares – ABERTA A NOVAS ADESÕES
Mães de Maio
26/09/ 2011
Para mais informações: www.redecontraviolencia.org
Para novas adesões: comunicacao.rede@gmail.com
Como é de conhecimento comum, a
situação dos militantes de direitos humanos no Estado do Rio de Janeiro
é de extrema vulnerabilidade. Isto se dá, pois, toda denúncia feita de
alguma violação de direitos, principalmente aquela provocada por
agentes da segurança pública, vem acarretando algum tipo de represália
e ameaças. Um dos exemplos recentes disso é a situação enfrentada pela
militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência,
Márcia Honorato.
Márcia é uma reconhecida militante no
Estado do Rio de Janeiro, especialmente por sua atuação no sentido da
denúncia de inúmeras violações cometidas por policiais militares contra
moradores de favelas e periferias cariocas e fluminenses. Ela
participou ativamente das mobilizações que se originaram a partir da
Chacina da Baixada, em 2005, quando policiais militares assassinaram 29
pessoas entre Nova Iguaçu e Queimados. Além disso, ajudou a denunciar
grupos de extermínio nesta mesma região, além de atuar em outros casos
de violação do direito à vida cometida por agentes públicos no Estado
do Rio de Janeiro. A partir de então, entretanto, sua vida passaria por
uma modificação profunda. A militante de direitos humanos em questão
sofreria um atentado, em 2007, e diversas ameaças após isso. Uma das
mais graves ocorreu em abril do referido ano. Márcia estava em casa,
quando observou que o portão de entrada estava aberto, o que achou
muito estranho, pois este costuma ficar sempre fechado. Assim, foi até
o portão para fechá-lo, e, neste momento, uma pessoa que se encontrava,
juntamente com outra, em uma moto parada na rua, chamou pelo seu nome.
Em seguida, desceu da moto e foi até Márcia, pegando-a pelo pescoço, e
falou: “você é um anjo; eu já te avisei; você quer morrer?”. Enquanto
dizia isso, esfregava uma arma de fogo sobre o rosto de Márcia e esta
respondeu, então: “vai se ferrar!”. O homem, então, atirou para o alto
e, neste exato momento, o outro indivíduo que estava na moto
aproximou-se, segurou o pescoço daquele que atirou, dizendo: “você está
maluco?! quer complicar ainda mais a nossa vida?!”.
Márcia foi obrigada, então, a abandonar
sua casa às pressas, deixando para trás sua moradia e seu comércio, de
onde obtinha a renda que a sustentava e aos seus filhos. Em junho de
2008, ela foi inserida no Programa Nacional de Proteção aos Defensores
de Direitos Humanos do Governo Federal. Infelizmente, não somente ela
ficou vulnerável, mas toda a sua família. Seus filhos, ex-marido e
sogra também tiveram que sair de onde moravam. Todos eles perambularam
por diversos locais e hoje correm o risco de morar na rua.
Recentemente, numa tentativa frustrada por quem deveria lhe dar uma
satisfação, foi impedida de relatar sua situação à ministra Maria do
Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
Entretanto, apesar de supostamente
estar sob a proteção do Estado, esta não se efetivou em momento algum.
Como afirmou o professor Daniel Aarão Reis em artigo publicado no
jornal O Globo (20/09/2011), Márcia vive hoje numa espécie de
“clandestinidade oficial”. Apesar da extrema vulnerabilidade, Márcia
continuou a atuar como militante de direitos humanos. Ela acredita que
um mundo sem injustiças e violência é possível. Participou de inúmeras
atividades que a Rede contra a Violência realizou no ano e também
contribuiu para a denúncia de vários casos de violência policial em
favelas do Rio de Janeiro, sejam elas ocupadas ou não através das
Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Recentemente, entre outras
ações, estava acompanhando e ajudando a denunciar casos de violência
estatal ocorridos em duas comunidades ocupadas pela polícia:
Pavão-Pavãozinho e Coroa. Na primeira, desde a morte de um jovem por
policiais em abril deste ano, foram denunciadas vários outras violações
cometidas por estes agentes, com o conseqüente afastamento de um
policial daquela UPP. Na segunda, ela acompanhou a situação de jovens
que foram seqüestrados por PMs.
Mais uma vez a sua atuação e a dos
militantes da Rede não seriam bem vistas. Desde o final de agosto,
militantes do referido movimento social vêm sofrendo uma série de
ameaças provenientes de policiais. Ameaças por telefone e tentativas de
intimidação pessoal ocorreram. Contudo, a situação mais grave ocorreu
com a Márcia, em 12 de setembro, no Centro do Rio de Janeiro: ela
sofreria duas tentativas de assassinato. A primeira ocorreu na altura
do Passeio Público, por volta das 14:30hs. Quando tentou atravessar uma
rua próxima, um carro (Siena) foi em sua direção e ela desviou.
Considerou que, pelo trânsito da cidade ser caótico, aquela situação
expressava a imprudência de algum motorista.
A segunda tentativa ocorreu por volta
das 21hs, quando alguns integrantes da Rede estavam indo embora. Ela e
outros companheiros pararam para fazer um lanche, na Cinelândia. Neste
instante, percebeu que um carro com as mesmas características daquele
que quase a atropelou estava parado próximo e seus integrantes
conversavam com policiais militares que estavam na rua. Ela não deu
importância naquele momento. Algum tempo depois, já próximo à Central
do Brasil, quando já havia se despedido dos demais, o momento mais
grave: esse mesmo carro que havia tentado atropelá-la anteriormente
faria uma nova tentativa. Neste momento, o sinal de trânsito estava
fechado, mas uma ambulância passou pedindo passagem. O carro, então,
aproveitou este instante para avançar sobre Márcia. Ela percebeu o que
estava acontecendo, jogou-se na direção da ambulância e conseguiu
correr até um bar, onde se escondeu num banheiro. O carro voltou, e um
dos integrantes (havia cinco pessoas no veículo, todos encapuzados)
abaixou o vidro, procurando-a. Pessoas que estavam no bar naquele
momento ficaram atordoadas e comentaram: “Nossa, vai morrer todo
mundo”. Quando ela saiu do banheiro um cliente lhe perguntou: “A
senhora viu? Deve ser algum acerto de contas”. Ela respondeu, tentando
não chamar a atenção para si: “Não vi nada, não”. Assim que percebeu
que o carro não estava mais lá, ela saiu correndo, procurando um lugar
seguro para ficar.
Por tudo isso, não admitimos esta
situação. Exigimos que as autoridades públicas, municipais, estaduais,
federais e da justiça tomem medidas imediatas para garantir a segurança
de Márcia e sua família. É inadmissível que num Estado que se quer
chamar de democrático permita que seus próprios agentes cometam tantos
crimes e ameacem quem ousa denunciá-los publicamente. Márcia não pode
se transformar em mais um número. Ela não pode se tornar mais uma cova
no cemitério.
Nenhum militante a menos!!!
Movimentos sociais, instituições e indivíduos que assinam esta nota:
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência – RJ
Mães de Maio – SP
Fábio Konder Comparato – Advogado e Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
Pedro Paulo Lourival Carriello – Defensor Público (RJ
Rubens Casara – Juiz de Direito
Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia (CDH/CRP/RJ)
Daniel Aarão Reis – Professor da UFF
Luciana Vanzan – Conselheira do CRP/RJ
Humanitas (Direitos Humanos e Cidadania) – RJ
Ignácio Cano – professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Grupo Tortura Nunca Mais – SP
Débora Maria – promotora popular e coordenadora das Mães de Maio
Danilo Dara – Historiador
Instituto de Estudos da Religião (ISER) – RJ
Laboratório de Análise da Violência – UERJ
Rose Nogueira, jornalista e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais – SP
Rede de Denúncia e Proteção aos Militantes ameaçados de morte – Basta de assassinatos! Nenhum militante a menos! – SP
Lúcia Rodrigues – jornalista da Caros Amigos e da Rádio Brasil Atual
Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto – BA
Quilombo Xis- Ação Cultural Comunitária – BA
Alipio Freire – Jornalista e escritor (SP)
Núcleo de Preservação da Memória Política – SP
Maria Helena Moreira Alves – Professora da Universidade do Chile
Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade – MG
Brigadas Populares – MG
Cristina Pedroza de Faria, fotografa e professora
João Brant – Intervozes (SP)
Vera Vital Brasil – Fórum de Reparação e Memória do RJ
Pastoral Carcerária – SP
Conceição Oliveira – Blog Mariafro (SP)
Rodolfo de Almeida Valente – Coordenação Jurídica da Pastoral Carcerária de São Paulo
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – BH (MG)
Uneafro-Brasil
Aline Gama – UERJ
Eliana Sousa Silva – Redes da Maré (RJ)
Rede Extremo Sul – SP
Adriana Vianna – Professora do Museu Nacional/UFRJ
LACED – Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento – Museu Nacional/UFRJ
Simone Maria – Socióloga
Igor Ojeda – Jornalista
Raquel Willadino – Observatório de Favelas
Tatiana Merlino – Jornalista
Reginaldo Bispo – Movimento Negro Unificado (MNU)
Grupo de Educação Popular do Morro da Providência (GEP)
Maria Geneci Silveira – RS
Centro de Mídia Independente
Coordenação do Movimento Negro Unificado de Santa Catarina
Walter Mesquita – Viva Rio
Danilo Moura – Instituto Quilombista (SP)
Ângela Soligo – Unicamp
Sarau da Ademar – SP
Silvana Martins, Sarau da Ademar – SP
Juliana Romão, Sarau da Ademar – SP
Alessandra Ferros, Sarau da Ademar – SP
Zilda Márcia Grícoli Iokoi – Professora titular e membro do Laboratório
de Estudos sobre a Intolerância da FFLCH da Universidade de São Paulo
Consuelo Gonçalves – MNU e Rede Quilombos do Sul
Luciane de Oliveira Rocha – Ong Criola
Fórum Estadual de Juventude Negra – ES
Ali Rocha, jornalista/produtora – SP
Mercia Britto – Cinema Nosso (RJ)
Luis Carlos Nascimento – Cinema Nosso (RJ)
Carolina Merat – Produção do Filme Luto como Mãe
Comitê Pró-Haiti
Coletivo Merlino – SP
Uneafro
Douglas Belchior, Uneafro-SP
Círculo Palmarino Daniel Dantas Lemos - BlogProg RN
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